Existe mãe sem filho? Por um mundo onde maternar seja o que nos dá sentido e significado (não o que nos foi incutido)

Giovana Thezolin – CRP 06/99840

Psicóloga Clínica há 14 anos, teve formação e especialização pela PUC e realiza atendimento remoto para mulheres em todo o país
Justificada por funções biológicas e sociais, historicamente aprendemos que para sermos mulheres em nossa completude, devemos necessariamente ser mães. Essa afirmativa vai de encontro com aquela pergunta invasiva que
teimam em nos “presentear”: “Mas porque você não tem
filhos?”.


Até poderíamos devolver na mesma ordem de invasão: “Por que você os tem?”. Mas proponho um caminho de sensível reflexão.
Decidir tonar-se mãe requer responsabilidade e compromisso, mas acima disso, requer desejo e significado, portanto, ser mãe no sentido que conhecemos não deve ser posto como uma função inerente a mulher.
A mulher é fonte criadora e pode, mas não deve ser vinculada a obrigação de procriar, pois enquanto fonte criadora, a travessia é dela e criar é pertencer, é estar no mundo em forma de liberdade.

Sendo assim, devemos ser mães das nossas escolhas! Podemos ser mães de um projeto importante, podemos gestar a nossa arte, podemos ser férteis em nosso trabalho, podemos parir uma ideia, ser mães do que entendemos por lar, mães da gente mesma e das nossas convicções.
Por que mãe é luz, no que tange a direcionamento, no que tange a cuidar do que importa, no que transmite saber e transita no assumir para si e ponto.
Agora que conversamos um pouquinho sobre ser ou não ser mães, porque desejamos ou não desejamos, podemos falar sobre as expectativas que aprisionam e adoecem boa parte das mulheres que tiveram filhos.


Romantizaram a maternidade, encontro mulheres sozinhas e fragilizadas por não conseguirem atingir padrões de perfeição e não se vincularem aos filhos dentro do conceito que foi vendido sobre maternar.
Ouço mães querendo sair correndo no mundo e chorarem escondidas, quando aniquiladas, atravessadas pela impotência e sentimento de inadequação chegam a questionar: O que há de errado comigo? Será que eu realmente amo meu filho? Se sim por que não queria ser mãe no dia de hoje? Saiba que esse é um sentimento legítimo e não tem nada de errado com você que não consegue amar todos os momentos da sua maternidade.


Precisamos romper com os modelos ideais e provocar discursos que assumam dor e a identidade. Desconstruir o clichê de “Ser mãe é padecer no paraíso” e saber que isso não significa não amar os filhos e sim dizer pra si e para outras mulheres que tem dias que a vontade é de desistir, por mais “feio” que isso possa parecer.

É dar as mãos a mães que tiveram depressão pós parto, as mães que não conseguem amamentar, as mães que nunca conseguiram deixar de trabalhar, as mães solo, as mães de filhos com deficiência, as mães que não gestaram, mas são igualmente mães, as mães que não possuem rede, as mães sobrecarregadas.


A construção social do feminino ligadas a representação da maternidade ainda é delineada por sacrifício, renuncia, resignação e santificação, é hora de ressignificarmos essa narrativa e humanizarmos a maternidade para que possamos assumir sem culpa o que é nosso por direito e gritar por socorro sem que nos chamem de histéricas.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário
Por favor insira seu nome aqui