O adeus aos orelhões e a história do morador Celino Tapi

Celino Tapi cuidou de um orelhão no Jardim Primavera

Há cerca de 40 anos, os orelhões começaram a se espalhar pelas cidades e bairros, tornando-se por décadas um dos principais meios de comunicação pública. No Jardim Primavera, um desses aparelhos acabou ganhando destaque não apenas pelo uso, mas pela história construída em torno dele e pelo cuidado de um morador que acompanhou toda a sua trajetória.
O equipamento foi instalado inicialmente em uma rua mais afastada do bairro, sem supervisão constante. Segundo o morador Celino Tapi, de 74 anos e residente há mais de 40 anos na região, o local facilitava ações de vandalismo e uso indevido, o que fazia com que o orelhão apresentasse constantes defeitos e ficasse fora de funcionamento.
Ele relata que a situação se tornou motivo de preocupação, já que o equipamento poderia não estar disponível em uma necessidade real. Diante disso, Celino decidiu entrar em contato diretamente com a operadora telefônica da época e solicitou a remoção do orelhão daquele ponto. O objetivo era trazê-lo para mais perto de sua residência, onde poderia acompanhar e preservar o equipamento.
“Eu liguei na operadora e pedi pra trazer o orelhão pra frente da minha casa, porque lá onde ele estava ninguém cuidava, era longe, os meninos quebravam, vandalizavam direto. Aqui eu podia olhar, cuidar e evitar que estragasse”, relembra Celino.
Com a mudança atendida, o orelhão passou a ficar em frente à casa do morador, o que reduziu os episódios de vandalismo e melhorou sua conservação. A partir daí, Celino também passou a atuar diretamente no apoio ao uso do aparelho, vendendo fichas telefônicas e acompanhando a evolução do serviço ao longo dos anos.
Ele lembra com emoção da época das fichas e do uso mais simples do telefone público. “As ligações com ficha eram rápidas, porque acabava logo, mas era ali que a gente ouvia as declarações de amor, de saudade entre amigos e familiares. Era tudo mais sincero”, diz.
Com o avanço da tecnologia, as fichas deram lugar aos cartões telefônicos, depois vieram os celulares e as recargas, até que o orelhão perdeu completamente sua função. Na penúltima semana de abril de 2026, os últimos aparelhos começaram a ser retirados da cidade. Na quarta-feira, 29 de abril de 2026, o equipamento do Jardim Primavera também foi removido, encerrando um ciclo de décadas no bairro.
Celino acompanha essas mudanças com sentimento de reflexão sobre a modernidade e seus efeitos na convivência. Hoje, ao observar as mudanças trazidas pela modernidade, o morador reflete sobre os novos hábitos de comunicação. Para ele, embora a tecnologia tenha aproximado pessoas em termos de facilidade, também contribuiu para um distanciamento dentro das próprias famílias, entre pais, filhos e irmãos, alterando a forma como os vínculos são mantidos no cotidiano.
Ele reforça essa percepção ao comparar os tempos antigos com os atuais. “Hoje todo mundo vive com o telefone na mão, mas com o coração frio, sem amor”, avaliou Celino, ao lamentar a mudança na forma como as pessoas se relacionam.
Para ele, o orelhão não era apenas um equipamento público, mas um ponto de encontro e de sentimentos. Ao longo das décadas, acompanhando cada fase da telefonia, Celino viu o bairro mudar, a tecnologia avançar e, junto com ela, parte da convivência entre as pessoas se transformar em algo mais distante.

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