“Um dia do peixe, outro do pescador…”

Tadeu Fernando Ligabue

Este ano a pescaria no Amazonas foi do peixe, ao contrário do ano passado quando a pescaria no Rio Negro foi farta em quantidade e na qualidade dos grandes tucunarés-açus fisgados nas iscas artificiais. Ainda com a boa sensação da pescaria 2024 na mente, passei o ano fazendo planos e economizando para a Barcelos 2025.
A intenção era pescar no mês de janeiro, como no ano passado, mas imprevistos me impediram e combinei com o guia Bigode (Francisco Moraes Carneiro) de pescarmos do dia 15 ao dia 22 de fevereiro, totalizando oito dias de pesca.
Queria repetir os mesmos locais onde fomos bem-sucedidos no ano passado, porém, não chegando a Santa Isabel do Rio Negro, mas trabalhando mais nos grandes lagos do Rio Negro, mais próximos de Barcelos. Mas, as notícias que foram chegando eram de que o Rio Negro estava enchendo e iria atrapalhar a pescaria, optando o guia em pescarmos no alto do Rio Cuiuni, onde conseguiu informações de que o rio ainda não estava enchendo e tinham acontecidas boas ações de tucunarés grandes.
Fechado o pacote, saí de casa no dia 13 de fevereiro, uma quinta-feira à noite, indo até a rodoviária de São João, onde na madrugada peguei o ônibus até a rodoviária de Campinas, chegando às 8h30. Me dirigi ao aeroporto, pegando o voo para Manaus, chegando quatro horas depois. Pernoitei em Manaus e na manhã, por volta das seis horas, já estava no Porto de São Raimundo para pegar o Expresso Lady Luiza onde viajaria o dia todo, para chegar em Barcelos já anoitecendo.
Quando cheguei, o Bigode já me aguardava – ele tem família e reside na cidade – pernoitei numa pousada em frente ao porto e no sábado, dia 15 de fevereiro, iniciei a jornada de pesca no Rio Cuiuni, afluente importante do Rio Negro. Fomos subindo e pescando, com cerca de 150 litros de combustível no pequeno barco do guia, que era tocado por um motor de 30hp.
Fim do primeiro dia e já deu para notar que o rio também estava cheio, com repiquete e poucas ações de peixes. A previsão era de chuva durante toda a semana, o que só aumentava a expectativa negativa da pescaria. Rio cheio na Amazônia é sinal de peixe fugindo para dentro das matas e não dando as caras para os pescadores.
Repiquete é a palavra mais temida para quem vai pescar na Amazônia. “É o nome dado a um fenômeno natural onde rios e lagos recebem muita água vinda de chuvas intensas nas cabeceiras dos rios. É uma cheia repentina. Esse fenômeno altera, de forma ainda não totalmente compreendida, o comportamento do Tucunaré, que se dispersa pelas matas e para de atacar as iscas, ou ataca muito menos”.
Foram uns três dias pescando no alto do Rio Cuiuni, com poucas ações e pegando peixe para comer no almoço e na janta. Foram dias nublados, com pancadas de chuva e torcendo para a barraca aguentar os pancadões torrenciais da Amazônia. Bigode improvisava uma lona para também se abrigar na sua rede e sustentar o fogo para a comida.
Diante do quadro nada favorável, decidimos voltar para mais perto de Barcelos, próximo à boca do Cuiuni, onde ele desagua no Rio Negro e onde fica a comunidade Ponta da Terra e moram os familiares de Bigode. De lá, partíamos para pescar aos arredores, também nos aventurando no Rio Negro, com algumas ações nas iscas de hélices, no “joão pepino”, na bonnie e na red pepper. Também pescamos com iscas de meia água e jigs.
O bom de estar na comunidade foi o conforto de dormir numa casa, poder compartilhar a hospitalidade de dona Jardelina e seu Francisco, ela, mãe de Bigode e líder do local. De dona Jardelina pude almoçar um moqueado de pirarara, uma manta de pirarucu ao molho, também saboreei um ensopado de tartaruga cabeçuda feita pelo guia Alfredo, carne de cotia, entre outras comidas que fazem parte da dieta dos ribeirinhos do Rio Cuiuni.
O local é privilegiado pela sua beleza, com o rio oferecendo paisagens únicas e lagos maravilhosos. Por ser próximo a Barcelos, distante cerca de uma hora de barco, sofre muito com a pressão da pesca, o que acaba dificultando pegar grandes troféus. No presente caso, ainda piorado pela cheia do rio.
Mas foi uma pescaria gostosa, sem maiores acontecimentos, a não ser minha vara que caiu n’água e Bigode de pronto mergulhou resgatando o conjunto de vara, isca e carretilha. Fiquei devendo essa ao meu amigo.
No domingo, dia 23 de fevereiro, começou o regresso, chegando em casa na noite de 25 de fevereiro, terça-feira, cansado, mas com uma doce sensação de que valeu muito a pena a pescaria este ano. Embora sem os grandes troféus, ganhamos mais experiência, fizemos mais amizades, conhecemos um pouco mais da Amazônia, seus habitantes, sua fauna e flora.
Agora, os sonhos do pescador se voltam para 2026, quem sabe em agosto, numa viagem ao Rio Tea, pelas bandas de Santa Isabel do Rio Negro, onde habitam os gigantes e talvez eu consiga pegar um troféu de 90up, porque o de 80up, já fisguei. Brincadeira à parte, pois pegar um tucunaré-açu de 90cm ou mais não é para qualquer pescador, o sonho continua e na vida, “sonhar é preciso”.

Fotos: Arquivo Pessoal

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