Marília Tonetto – retirado do seu livro “Eu (não) sou louca”
Nos comparam às divindades
Maravilhosas e desejáveis.
Nos colocam uma capa
De heroína
E nos reverenciam
Por cumprir a sina
Que o Estado quer,
Que o patriarcado ensina.
Menina,
Deve brincar com bonecas,
Lavar a louça,
Limpar a casa…
“Vamos!
Mãos à massa!”
Ela cresce dentro de estereótipos
Antes criados por homens,
Patriarcado estrutural,
Social
Que molda
Solda
E nos faz tão mal.

Qualquer coisa que saia
Dos protocolos do sistema
É ruim
Precisa ter fim.
Depois que a criança nasce
Tu não passas de um desastre
“Não se cuide e nem se afaste
Da tua cria”
Senão serás uma “mãe fria”
Irresponsável,
Alienável.
Ai de ti se não fazê-lo dormir
“O pai não pode!
Ele trabalha
Fora”
“Quer que ele vá embora?”
É o que apontam
Atirando pedras em quem gesta,
Colam na nossa testa
O selo
Da própria verdade.
Nos rotulam unicamente
Por uma só parte
A MATERNIDADE.
Depois de ser mãe
Perde teus outros títulos,
Características
Atributos psíquicos,
És somente mamãe,
Nada além disso.

Provedora,
Cuidadora,
Protetora.
Se algo acontece ao ser pequeno
A culpa é toda tua,
Te envenenam
E de repente a deusa que eras
Desaparece,
Transforma-se em vilã.
Acostume-se
Pois também não vão te deixar
Sair,
Espairecer
Será um desafio
Viver.
“Porque não está cuidando,
Amando,
Amamentando.
De forma intensa
E devoradora
A todo momento,
A toda hora?
A sociedade me assombra,
Me apavora,
Quer me enquadrar,
Me resumir,
Me encaixar.
Eu sou um universo
Em ascensão
Uma infinidade
Em manutenção.
Constante mutação
Com certa imperfeição.
Eu estou em vários lugares
Exercendo infinitos papéis sociais
Porque não me veem
Como mais?

Eu desejo ser
Qualquer coisa
E ser reconhecida
Por qualquer coisa
Que eu quiser ser.
Eu sou mulher,
Amante da natureza,
Da música brasileira,
Pedagoga,
Pertenço à classe trabalhadora,
E antes de tudo
Me pertenço!
Me amo,
Me cuido,
Me proclamo.
Qualquer parte da minha imensidão
Não trabalha individualmente,
Intrínsecas são
As particularidades que me compõe
Não sou apenas mãe
Como você propõe.
Irei ocupar espaços
Irei exercer os direitos que me cabem.
Eu não me adequo à sua caixa
De uma só possibilidade.
Sou una
Em um milhão
De singularidades.

Vai aceitar
E respeitar,
Me ver fazendo o mesmo
Que um homem faz.
Eu sou o que você vê,
O que escrevo,
O que almejo
E muito,
Muito
Muito
Mais.












