Iniciativa voluntária já impactou centenas de crianças, famílias, educadores e líderes religiosos ao longo de cinco anos de atuação
Com cinco anos de existência, o projeto Resgatando a Inocência tem se consolidado como uma das iniciativas mais relevantes na conscientização e prevenção de abusos contra crianças e adolescentes em Vargem Grande do Sul e cidades da região. Idealizado por Josaine Cristina Pedro Ronqui, conhecida como “Tia Jô”, o projeto é totalmente voluntário e sem fins lucrativos, com foco na educação preventiva, acolhimento e orientação a públicos diversos, incluindo crianças, pais, professores, líderes religiosos e agentes públicos.
Josaine é vargengrandense, tem 42 anos e faz serviços terceirizados com cartazes. Ela é capelã cristã, missionária, ministra infantil e trabalha com palestras de prevenção e proteção. A proposta surgiu a partir da vivência de Josaine com o público infantil em igrejas e do projeto anterior Desconecta, que alertava sobre os riscos da internet. Desde então, Resgatando a Inocência cresceu e hoje percorre escolas, igrejas e espaços comunitários com palestras, oficinas lúdicas e atividades musicais, levando informação e conscientização sobre os diversos tipos de violência que ameaçam a infância — física, psicológica, sexual, negligência, abandono, trabalho infantil e exposição precoce a conteúdos inapropriados.
À Gazeta de Vargem Grande, Josaine contou como surgiu a iniciativa do projeto. “Sou cristã, então já tem 12 anos que eu trabalho com crianças e nesses 12 anos que a gente trabalha com criança nas igrejas a gente já fala sobre proteção, sobre os riscos da internet e a necessidade vem justamente por isso, né? Para que a igreja seja segura, para que todo o ambiente que recebe o público infantil, ele promova segurança. E o conhecimento de toda a sociedade, não só as crianças, mas também familiares, professores e lideranças”, explicou.
Em Vargem Grande do Sul, o projeto ganhou visibilidade especialmente a partir de 2023, em parceria com o Conselho Tutelar, que, neste mês de maio, com a campanha “Maio Laranja” promove ações de alerta e mobilização para o combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes.
O projeto Resgatando a Inocência visa a orientação de pais e responsáveis por meio de palestras e para crianças por meio de palestras lúdicas e musicais. “Em Vargem Grande do Sul está sendo mais divulgado agora, através do convite do Conselho Tutelar local. No ano de 2024, fizemos a caminhada em prol a proteção de crianças e adolescentes, onde levamos o projeto para a sociedade. Este é nosso segundo ano nessa parceria, através do belíssimo trabalho do Conselho Tutelar”, comentou.
Outras cidades também integram a rede de atuação do projeto. Em Casa Branca, o trabalho já ocorre há três anos com apoio do CREAS, através da servidora Thamires Lopes. Em São Sebastião da Grama, a parceria é com o CMDCA, a Secretaria de Educação e a Prefeitura. A próxima ação será no dia 28 de maio no Projeto Guri, na mesma cidade. Além disso, o projeto também foi levado em escolas e igrejas de Porto Ferreira, Itobi, Aguaí, São José do Rio Pardo e, nesta semana, segue para Cabo Verde (MG).
As ações têm como diferencial a formação de multiplicadores locais. Em cada município, professores, conselheiros, voluntários e membros de igrejas se unem ao projeto, garantindo que a mensagem de proteção continue sendo propagada mesmo após a saída da equipe.
Apenas em abril e maio, o projeto já passou por quatro igrejas de Vargem, uma de São José do Rio Pardo, uma de Itobi, uma de Porto Ferreira e uma de Aguaí.
“É o terceiro ano do mesmo trabalho na cidade de Casa Branca junto ao Creas, o primeiro ano na cidade de São Sebastião da Grama junto ao CMDCA, Secretaria da Educação e Prefeitura Municipal. Aqui em Vargem, a convite da coordenadora de projetos Bell Costa, estivemos palestrando para as crianças da Escola Municipal Flávio Iared, onde tivemos um ótimo aproveitamento com as crianças, bem como a participação de professores e voluntários”, completou.
Josaine pontuou que a missão é levar à sociedade a importância e urgência deste assunto, onde muitos ainda não conhecem a dimensão do problema e o que gera no crescimento social, físico e emocional da criança. “A função de orientar, e defender essa causa não é somente dos órgãos de defesa, é dever de toda sociedade. Se houver a possibilidade de um possível abuso, de acordo com sinais e sintomas, já é necessário a notificação junto aos órgãos competentes, dentre eles o Disque 100 e conselho tutelar. A omissão é crime e a revitimização da criança e adolescente também, por isso a necessidade da sociedade ser instruída”, explicou.
“O artigo 227 da Constituição Federal determina que é dever de todos assegurar, com absoluta prioridade, os direitos das crianças e adolescentes à vida, à saúde, à educação, ao respeito, à liberdade e à proteção contra toda forma de violência”, completou.
Josaine comentou sobre a Campanha Maio Laranja. “O laranja é a união das cores amarelo (atenção) e vermelho (pare), mostrando que a sociedade precisa urgente se atentar para essa causa e dar um basta, notificando e instruindo suas crianças. Preparar ambientes seguros e responsáveis para que a infância esteja protegida. As crianças estão em fase de desenvolvimento biológico e psicológico. O que elas vêem e ouvem têm profunda influência no seu comportamento e desenvolvimento. Elas têm dificuldade devido a idade de fazer julgamento e ter percepções, e essa fragilidade facilita a exploração e possibilidade de abuso. Necessitam de proteção, orientação e acompanhamento em sua formação”, disse.
Segundo explicou, neste mês, o projeto está focado em combater e a conscientizar, mas nós trabalhamos com o projeto durante todo o ano. “Nosso trabalho é voluntário e por enquanto sem nenhum tipo de patrocínio nem nada, mas a gente tem feito trabalho com muito amor, com muito carinho, tentando trazer para a sociedade a conscientização, que é tão necessária, né? E ainda não conseguimos alcançar o nosso objetivo, porque nós ensinamos as crianças, mas precisamos alcançar os pais, as famílias, lideranças e eclesiásticas, tem igrejas aqui que têm feito trabalho com isso, que a gente tem acompanhado, tem orientado, mas falta muito ainda”, pontuou.
Para a idealizadora, é importante que o relato da criança não seja desacreditado. “O projeto busca enfatizar a sociedade nunca em hipótese alguma desacreditar no relato ou pedido de ajuda de uma criança. E sempre convencê-la que ela não tem culpa nenhuma do que aconteceu, que ela terá ajuda e que você acredita nela. Esse é um remédio poderosíssimo que trará de uma certa forma um pouco de alívio para essa criança e adolescente que já sofreu tanto”, disse.
Voluntariado
A cada cidade visitada, o projeto “Resgatando a Inocência” amplia sua rede de apoio e reforça sua missão: formar um verdadeiro exército de proteção às crianças e adolescentes. A iniciativa, que já percorreu diversos municípios, tem sido abraçada por conselhos tutelares, professores, representantes do CMDCA e voluntários em geral.
À Gazeta, Josaine explicou que a cada cidade que o projeto vai, as próprias pessoas que os chamaram, já se voluntariam, porque acreditam no trabalho. “Na cidade de São Sebastião da Grama, os conselheiros, o pessoal do CMDCA, até os professores se voluntariam. É um carinho muito grande que eu recebi naquela cidade e foi muito bom, não vejo a hora de voltar lá para fazer o trabalho com o Guri. Aqui em Vargem, na Escola Flávio Iared, tivemos a participação de todos os professores. Temos o pessoal que nos ajuda, mas em cada lugar que a gente vai, levantamos mais um pessoal para continuar, porque a função do projeto é deixar um legado”, disse.
“Então o projeto vai continuar, um dia não vou estar mais aqui, mas o projeto vai continuar. As pessoas que estão junto comigo, são voluntárias, um dia não vou estar aqui, mas o projeto precisa continuar. Em Casa Branca, nós temos a Tamires do Creas, que nos convida e nos ajuda de forma extraordinária, os professores nos ajudam ali, é incrível. Através desse projeto, nós temos levantado um exército de proteção. A ideia é essa, porque quando a gente leva o nome de uma pessoa, a gente está construindo a história daquela pessoa, então ela vai levar o nome de herói, mas temos muitos heróis fictícios no meio da sociedade. Nós precisamos de um exército que protege, porque só assim, verdadeiramente, o nosso projeto vai conseguir realizar a função para qual ele foi destinado, que é proteção”, completou.
Ela comentou que está encabeçando esse trabalho e defendido a bandeira da proteção, mas que sozinho não é possível fazer nada. “Para mim, o que tem dado crescimento ao projeto Resgatando a Inocência é, primeiramente, a Deus. Eu sou cristã, mas não levo religião, levo conhecimento e direcionamento à paz e às crianças e à sociedade, e o projeto só vai prosseguir se um exército se levantar e os tabus se quebrarem, seja em instituições religiosas, seja em lugares onde tem costumes de certos tipos de músicas que induzem, infelizmente, a erotização, e então a consciência é de todos. Onde eu não consegui passar, eu sei que tem um exército ali que se levantou em defesa da criança e do adolescente”, disse.
Os riscos
Josaine ressaltou que a violação da criança e do adolescente se dá pela violência física, psicológica, sexual, a negligência, o abandono, o trabalho infantil, situação de rua, evasão escolar e dependência química. “Então, temos todos esses complicadores. A gente vê muitas vezes crianças na idade pré verbal muitas vezes nas ruas à noite, os familiares muitas vezes cobram muito dos órgãos de defesa, mas esquecem que a lei ela vai bater na porta da casa do familiar, ele também é responsável, a escola também é responsável, as igrejas também são responsáveis.
Todo lugar aberto precisa se conscientizar, todo lugar que recebe público infantil precisa se preparar”, disse.
“Precisamos trazer essa responsabilidade a todos. Por exemplo, o que muitos exploradores usam para poder atrair as crianças, são situações e cenários que agradam as crianças, como joguinhos como o Free Fire e Roblox, onde meninas de de 8, 9, 10 anos, estão ali suscetíveis a situações de erotização, onde o bichinho virtual que está brincando ali com eles, está usando linguagem sórdida, linguagens erotizadas, com conteúdo adulto que não são pra idade delas. E o Conselho Tutelar, a polícia, o Disque 100 não vai conseguir entrar nesse ambiente, quem tem que entrar é o familiar, é a responsabilidade da família. E muitas vezes, o familiar não compreende”, apontou.
Ao jornal, ela disse que a criança que está sendo exposta a vídeos com conteúdo adulto vai ter algumas complicações, como uma adultização precoce e erotização, podendo mudar o seu comportamento. “Uma criança calma pode ficar agitada ou violenta, uma criança ativa e alegre, pode se tornar reprimida. Aí tem criança se automutilando, porque a dor emocional é tão grande, que ela precisa se cortar, se mutilar, para amenizar a dor interna. Porque ela grita e ninguém vê, ela está sendo oprimida, está sendo coagida a não pedir ajuda”, relatou.
“As famílias às vezes acham que se denunciar vai correr perigo, mas a sociedade precisa entender que a sociedade não denuncia, ela notifica, a denúncia é feita pelo Ministério Público, pelos conselheiros. Então precisa ter essa diferenciação, e quanto mais pessoas estiverem atentas a isso e entender que é função de todos, que omissão é crime, que precisam compreender. Uma criança quando vai abordar uma situação, ela já está no seu ápice, no seu limite, quando ela consegue chegar a um adulto de confiança, ela já está no limite do sofrimento e da dor. E quem vai acolher? Ensinamos na palestra a respeito das pessoas de confiança, dos lugares que ela pode buscar ajuda e essas pessoas precisam estar preparadas para acolher e agir corretamente para não vitimizar essa criança”, argumentou.
Segundo explicou, o compartilhamento de informações é prejudicial para a criança. “Ela vai estar passando por uma situação vexatória, humilhante, ela precisa de um acompanhamento. A engrenagem no meio da nossa sociedade precisa funcionar e a sociedade precisa cobrar, mas também precisa exercer a sua função de uma sociedade que protege. Falamos sobre proteção e na academia, por exemplo, na aula da criança começa a tocar um tipo de música que erotiza, que faz a criança fazer gestos sexualizados. O que estamos querendo? Estamos querendo proteção mesmo? Eu acho que se realmente queremos proteger, temos que deixar a criança ser criança, não tá na hora de adultizar”, comentou.
“Precisa haver uma fiscalização, ambiente, musicalidade, vídeos, até porque a exploração sexual por meio de facebook, youtube, sabemos que muitos comerciais e falas são erotizadas com vídeo com conteúdo adulto que muitas vezes a própria família não tem controle. Então começa por aí, por isso que os estudos revelam que a idade que a criança já tem acesso a algum tipo de conteúdo adulto é a partir dos 9 anos e às vezes tá dentro de casa. Será que a família sabe? Será que estamos orientados o suficiente para poder conduzir e cuidar de acordo com o que a lei determina? Porque é dever de todos, é dever de toda a sociedade”, completou.
A importância do saber
Apesar do impacto crescente, o projeto ainda não conta com patrocínio e depende do esforço voluntário de sua idealizadora e de parceiros locais. Josaine tem investido em especializações com profissionais da área, como Leidiane Rocha e Dani Zapone, para aprimorar a abordagem do projeto.
“É muito necessário a especialização, porque principalmente nessa área, se não buscarmos conhecimento, podemos revitimizar e piorar a situação das crianças. Não é somente conhecer as leis, nem somente conhecer a situação, mas o afeto, o cuidado, a atenção com as crianças, e entender”, disse.
A flor da campanha Maio Laranja, segundo o explicado, representa a totalidade do que isso significa. “A infância é como um belo jardim, mas esse belo jardim é muito frágil e a gente precisa saber cuidar, então eu levo comigo essa missão da atenção, de entender que o nosso corpo tem limite e a gente precisa gritar “aqui não, não pode, não quero”. E esses órgãos de defesa nos ajudando é muito importante, porque uma palestra bem sucedida, com os órgãos de defesa do nosso lado, qualquer tipo de acontecimento eles já vão estar lá para dar apoio”, disse.
“Nas escolas a gente dá palestra e já orienta os profissionais da responsabilidade que eles têm, caso houver algum relato, porque a criança vai buscar nesses profissionais, nesse familiar, nessa instituição, uma pessoa de confiança. Isso é o que a gente está dando ênfase na nossa palestra para as crianças, que nós precisamos ser lugar seguro, uma pessoa de confiança, e principalmente, essa pessoa de confiança tem que ter responsabilidade e compreender que ela precisa fazer cumprir a lei, porque é direito da criança, está no Estatuto da Criança e do Adolescente”, relembrou.
Ela também pontuou que não é possível fazer palestra de cuidado em meia hora, que criança precisa de tempo e a família precisa dispor de tempo. “Uma palestra para adulto dura em média de duas horas a duas horas e meia. Para crianças pré verbais, precisamos de no mínimo 1h de palestra, para crianças verbais é de 1h30 a 2h de trabalho. Então nosso trabalho tem sido desgastante, mas nos causa um regozijo muito grande, porque a gente sabe que essas crianças vão saber se defender”, disse.
“Para o abusador, uma criança instruída é muito perigosa pra ele, e a gente sabe que ele vai buscar aqueles que estão vulneráveis. O projeto está aí pra isso, para eliminarmos o quanto a gente conseguir dessa vulnerabilidade de informação dos adultos e das crianças. Uma criança que entende que um toque, um olhar ou um gesto pode ser perigoso, ela vai sinalizar frases como “eu aprendi, não, pare, eu vou gritar, vou correr, vou falar”, e isso já evita muita coisa”, finalizou.





































