
Com mais de vinte anos de experiência, apicultor de Vargem produz mel na Serra da Mantiqueira
O apicultor vargengrandense Isaias Duarte de Anastacio, cultiva mais de 700 colmeias espalhadas por municípios da Serra da Mantiqueira, nos mais de 30 apiários por ele instalados em vários sítios e fazendas da região. Apesar da colheita promissora, ele observa com preocupação a redução da população de abelhas e os impactos ambientais sobre a atividade. Segundo Isaias, nos mais de 20 anos de profissão, deu para sentir uma queda de mais de 30% da quantidade de abelhas nos locais onde ele extrai o mel.
Em seu sítio, localizado na região conhecida como Ribeirão Preto da Forquilha, perto da Pousada da Cidinha do Cuti, no alto da Serra da Mantiqueira, em Vargem Grande do Sul, ele construiu a “Casa do Mel”, como é conhecido o entreposto onde o apicultor realiza a extração, o envase e o armazenamento de sua produção.
Com mais de duas décadas de experiência, Isaias foi procurado pela reportagem da Gazeta de Vargem Grande para falar sobre sua profissão e sobre abelhas, uma vez que neste dia 3 de outubro, é celebrado o Dia Nacional da Abelha, destacando não apenas a importância vital desse inseto para o meio ambiente, mas também os desafios crescentes enfrentados por quem depende das colmeias para viver.
A data, criada no Brasil para conscientizar sobre o papel fundamental das abelhas na polinização e na produção de alimentos, ganha contornos mais urgentes diante dos relatos de apicultores como Isaias. Só no último ano, ele contabilizou a perda de diversas colmeias. Segundo os órgãos ambientais, a mortandade das abelhas acontece principalmente devido a incêndios e ao uso descontrolado de inseticidas na agricultura brasileira.
“Depois de mais de vinte anos no ramo, tenho percebido uma diminuição significativa no número de abelhas. O que mais contribui para isso, além do fogo, e, segundo os órgãos ambientais, são os agrotóxicos. Uma abelha contaminada mata no mínimo meia colônia”, lamentou Isaias em entrevista à Gazeta de Vargem Grande. “Minha preocupação é que as próximas duas ou três gerações nem saibam o que é uma abelha. Vai ser igual aos dinossauros: um dia existiram, mas ninguém conhece.”
Produção regional e mel medicinal
Isaias mantém cerca de 700 colmeias distribuídas por vários municípios da região, como Tambaú, Mococa, Casa Branca, São Sebastião da Grama, São Roque, Poços de Caldas, Cascata, entre outros. A diversidade de territórios favorece a coleta de diferentes tipos de mel, dependendo da vegetação predominante em cada local. Também as colmeias desempenham importante papel na produção agrícola das fazendas e sítios onde elas estão instaladas, beneficiando tanto o produtor agrícola, como também o apicultor.
Ao todo, o apicultor trabalha com cinco tipos de mel: Cipó-uva, Eucalipto, Laranja, Silvestre e Assa-peixe, sendo este último o mais procurado por suas propriedades medicinais. “O mel de Assa-peixe é muito procurado e é mais encontrado na região de São Sebastião da Grama e São Roque”, explicou.
A produção anual também impressiona. Em 2024, Isaias colheu cerca de 18 toneladas de mel. Para este ano, a expectativa é ainda maior: ele estima atingir 20 toneladas, caso as condições climáticas e ambientais colaborem.
Do campo à Casa do Mel
Toda a colheita tem destino certo: a “Casa do Mel” ou Mel Ribeirão que está situada em Vargem Grande do Sul. Lá, o mel é extraído, envasado em baldes e barris de 200 litros e armazenado no entreposto antes de ser comercializado para toda a região. Muito do seu produto é exportado por terceiros.
A estrutura é operada de forma familiar: enquanto Isaias realiza sozinho as colheitas nos apiários, a etapa de extração conta com o apoio de seu filho Hendrick Duarte de Anastacio e do funcionário Kaike Gabriel Eugenio Alves.
A safra e o ciclo da natureza
Diferente de outras regiões do Brasil, onde a safra de mel se concentra entre maio e junho, e depois entre outubro e janeiro, na região da Serra da Mantiqueira, segundo Isaias, a colheita ocorre principalmente entre junho e agosto, cerca de 40 dias após o auge da floração.
Vários fatores determinam a viabilidade e o momento ideal para a coleta do mel. Além da presença de floradas abundantes, são necessárias condições climáticas favoráveis, como dias secos e ensolarados, além de um nível adequado de maturação do mel, quando os favos estão com pelo menos 80% dos alvéolos operculados, ou seja, cobertos por uma fina camada de cera.
A atenção ao manejo das colônias também é fundamental. O apicultor precisa garantir que os enxames estejam saudáveis e que haja mel suficiente para a sobrevivência das abelhas durante o inverno. “Não se pode colher tudo. É preciso deixar reserva para elas”, alerta Isaias.
Mais do que mel: polinização e equilíbrio ambiental
As abelhas da espécie Apis mellifera, também conhecidas como abelhas-europeias, exercem um papel essencial no equilíbrio ambiental, principalmente por serem responsáveis por boa parte da polinização das plantas, processo que garante a reprodução de culturas agrícolas e de vegetações nativas.
No Brasil, as variedades mais comuns incluem as abelhas italianas, a alemã e as africanizadas. Apesar das diferenças físicas e comportamentais entre elas, todas compartilham o risco crescente de desaparecimento, impulsionado por ações humanas como o desmatamento, queimadas e o uso intensivo de pesticidas.
A produção de mel, embora economicamente relevante, é apenas uma das consequências da atividade apícola. A presença das abelhas nas paisagens rurais garante o florescimento de plantações, a preservação de ecossistemas e a continuidade de cadeias alimentares inteiras.
Neste Dia Nacional da Abelha, entre barris de mel e colmeias, Isaias reforça o apelo: “A gente precisa entender que sem as abelhas não tem vida. Elas não são só produtoras de mel. São guardiãs da natureza”, afirma o apicultor.
Fotos: Reportagem





















