Praticamente chegando ao fim da safra 2025 da batata de inverno colhida na região de Vargem Grande do Sul, o prejuízo é grande entre os produtores. Para o presidente da ABVGS-Associação dos Bataticultores da Região de Vargem Grande do Sul, Pedro Marão, 2025 é um ano para ser esquecido. “Em nenhum momento desde que começou a colheita na região de Vargem, os preços cobriram os custos de produção”, afirmou.
Pedro disse que é um prejuízo enorme para o produtor, devido ao alto custo para a produção da batata. “Muitos produtores vão ter que rever seus planejamentos de plantio para os próximos anos. O prejuízo é imensurável, pois além de afetar o bolso do produtor, afeta as cidades da região de maneira indireta. Afinal, ocorre uma falta de investimento por parte dos mesmos”, comentou.
Segundo apurou a reportagem da Gazeta de Vargem Grande, o plantio da batata vinha sendo uma atividade lucrativa há, pelo menos, seis anos, sendo que o ano de 2024 pode ser considerado como um dos melhores para o setor. Só para conhecimento, enquanto este ano o preço da batata foi comercializado em média entre R$ 30,00 a R$ 40,00 a saca de 25kg para o produtor, no ano passado chegou a ser comercializada entre R$ 140,00 a R$ 150,00 a mesma saca. Para muitos, em 2024, a batata teve o melhor ano da sua série histórica.
Este ano, a combinação do aumento da área plantada, a oferta e a produtividade da batata, fez os preços despencarem desde julho, início da safra, não se recuperando até o final da mesma, que ocorre em outubro. Se o preço baixo é bom para o consumidor, é ruim para o produtor.
Que o diga o agricultor Júlio César Canela, de 43 anos, produtor da região. Ele relatou ao jornal que 2025 foi um dos piores anos para o cultivo da batata em Vargem Grande do Sul. Segundo ele, os prejuízos foram significativos e generalizados. “Foi um ano de grandes prejuízos. O preço não aumentou, se manteve em baixa, e isso impactou diretamente a nossa margem. A média foi de R$ 30 por saca, o que mal cobre o que gastamos”, afirmou.
Júlio Canela também destacou que, embora o momento seja de cautela, há uma leve expectativa de melhora com o encerramento da safra. “Com o fim da safra, acredito que pode haver uma melhora nos preços. Mas ainda é muito cedo para ter qualquer expectativa realista para o próximo ano. Vamos precisar acompanhar o mercado e as condições climáticas nos próximos meses. Depois de um prejuízo desses, a gente precisa pensar duas vezes antes de investir. O impacto foi grande demais”, afirmou.
Fotos: Reprodução Redes Sociais / Arquivo Pessoal / Reportagem
Comprometimento com a qualidade
Na entrevista que concedeu à Gazeta de Vargem Grande, o presidente Pedro Marão afirmou que a ABVGS sempre tenta trazer números para que o produtor tome a melhor decisão possível, visando o melhor para o seu negócio. “A quantidade de sementes que é importada todo ano, é passada para os associados, e eles tomam a decisão do que devem fazer com o seu planejamento”, falou.
Explicou que Vargem é uma região onde a batata é plantada de forma planejada e limitada. “São poucos meses de plantio, para uma quantidade bem significativa de tubérculos colhidos. A expectativa para o próximo ano, devido as produções terem sido altas, é que a área se mantenha aqui na região”, comentou sobre o plantio para o ano que vem.
Afirmou que quando as outras regiões respeitavam os plantios de Vargem, todo mundo era beneficiado, porém, isso não ocorre hoje em dia. “Todas as regiões produtoras tem batata na mesma época de Vargem, que sofre com a grande oferta do produto no mercado. Estas regiões deveriam adotar uma estratégia de plantio, para que não falte batata no País o ano todo, com cada região sendo beneficiada com a demanda do período que ela pode atender. Mas isso é uma opinião pessoal, que dificilmente vai ocorrer, pois a falta de união entre nós produtores, infelizmente, é muito grande”, lamentou o presidente da ABVGS.
Marão reforçou o compromisso que o produtor rural tem com a produção sustentável dos alimentos que produz, usando de forma correta os recursos que são necessários para a produção de alimentos de ótima qualidade. Afirmou que recentemente a região produtora de Vargem teve a fiscalização da defesa agropecuária do Estado de São Paulo, onde foram analisados os tubérculos colhidos para ver se encontravam resíduos de defensivos agrícolas. “Os tubérculos apresentaram resultados conforme o esperado pela Secretaria de Abastecimento do Estado. Isso é muito louvável para a nossa região, pois mostra o comprometimento do produtor com a produção dos alimentos”, disse o presidente da ABVGS.
Presidente da Cooperbatata fala em solidariedade aos produtores
A reportagem da Gazeta de Vargem Grande também entrevistou Lucas Ranzani, presidente da Cooperativa dos Bataticultores da Região de Vargem Grande do Sul-Cooperbatata para saber sua opinião sobre a safra de batata deste ano. Lucas enfatizou que o preço de qualquer produto está diretamente ligado à lei da oferta e da demanda e com a batata não é diferente.
Lucas começou explicando que nesta safra, o clima foi extremamente favorável à cultura da batata, ao contrário de anos anteriores. Afirmou que o aumento da produção se deu também pela capacidade técnica dos produtores da Cooperbatata, que, com experiência e assistência especializada, conduziram lavouras acima da média. “Como resultado, tivemos índices de produtividade muito altos e, consequentemente, uma produção bastante elevada”, afirmou.
Isso, segundo o presidente da cooperativa, fez com que houvesse um aumento significativo na oferta. Além disso, pontuou que outras regiões passaram a colher batata na mesma época da safra de Vargem, ampliando ainda mais a disponibilidade do produto no mercado.
“Todos esses fatores resultaram em uma safra com qualidade e grande volume de produção. No entanto, isso coincidiu com um período de queda no poder de compra e retração do consumo, ou seja, com uma redução na demanda. E quando a oferta sobe e a demanda cai, a conta não fecha”, disse Lucas.
Impactos para os produtores
Para o presidente da Cooperbatata, os produtores de HF (hortifrúti) encerram essa safra com um sentimento de frustração, tanto comercial quanto financeiro. “No aspecto comercial, investiram em qualidade e excelência nas culturas de beterraba, cebola, cenoura e batata. No entanto, os preços praticados ficaram muito abaixo da média de anos anteriores. Produziu-se com qualidade, mas sem retorno”, comentou.
Com relação ao aspecto financeiro, Lucas afirmou que o impacto é ainda maior. “Os custos de produção só aumentam: óleo diesel, frete, mão de obra, beneficiamento, defensivos, fertilizantes, intermediários, a lista é longa”, argumentou, enfatizando que uma safra sem remuneração adequada, que não cobre nem os custos mínimos, afeta não apenas os produtores, mas toda a região. “Os prejuízos se estendem aos setores primário, secundário e terciário da economia local”, disse.
Ao ser perguntado como a Cooperbatata está reagindo no atual quadro que a safra da batata 2025 se apresenta, Lucas Ranzani afirmou: “A Cooperbatata nasceu dos produtores e é administrada por produtores. Ou seja: ela é o produtor”, explicando que um dos principais ensinamentos do cooperativismo é a solidariedade. “Por isso, jamais deixaremos nossos cooperados desamparados. Estamos comprometidos em buscar soluções caso a caso, de forma personalizada e eficiente”, falou.
O presidente afirmou que a fidelidade dos cooperados é o maior patrimônio da cooperativa e que tudo o que estiver ao alcance da Cooperbatata será feito. “A cooperativa segue sólida, com uma diretoria unida e empenhada em minimizar os impactos dessa safra tão desafiadora”, disse.
Lucas comentou ainda sobre as expectativas para o próximo ano, com uma crítica sobre como a economia para o setor é tratada, onde muito se fala e pouco se faz. “Este tem sido o retrato da economia nacional. Sem uma política fiscal séria e uma urgente redução das taxas de juros, todos os setores caminham, a passos largos, para uma recessão. Isso é fato”, criticou.
Para o presidente da Cooperbatata, a agricultura é quem sustenta a balança comercial do país, mas que, infelizmente, não recebe o reconhecimento que merece. “Na nossa região, o cenário dos próximos anos será de muita cautela, dúvidas e incertezas, impulsionado por uma combinação de insegurança jurídica, juros altos e redução no crédito rural”, completou.
Disse que frases como “Plantar pra quê?” ou “Produzir para quem?” se tornaram comuns no dia a dia do produtor, ressaltando que é preciso virar esse jogo. “Nossa região é estratégica, estamos próximos dos grandes centros consumidores, temos boas rodovias, silos para armazenamento de grãos e acesso ao Porto de Santos. Nossos produtores não podem ficar desamparados”, enfatizou.
Finalizando sua entrevista, o presidente da Cooperbatata afirmou; “Vamos fazer a nossa parte: negociar com empresas de insumos para reduzir os custos de produção, pressionar bancos e autoridades por taxas de juros mais justas e buscar alternativas para renegociação de dívidas. Sabemos que os próximos anos serão desafiadores, mas a união do Agro em busca do que é justo será ininterrupta e incansável. E esperamos que as autoridades também façam a parte que lhes cabe”.















