Hellen Indrigo Perez
O ônibus está vinte e sete minutos atrasado.
As pessoas já começaram a se amontoar debaixo do teto baixo que cobre o ponto, e está cada vez mais lotado aqui. Eu cheguei cedo, então ostento o luxo de ocupar um lugar no banquinho enferrujado.
Estou meio espremida, para ser sincera. Na minha esquerda, há uma grávida que se reveza entre jogar Candy Crush e assistir a cortes de novelas turcas. Na direita, um homem de meia idade fala ao celular.
E eu? Eu estou ocupada ouvindo.
– Não, Rita. Eu já te falei mil vezes, não dá.
Normalmente, não costumo ser enxerida assim. Mas você não pode me culpar por estar prestando atenção na conversa: são vinte e sete minutos de atraso, afinal de contas. O interesse por meus próprios pensamentos acabou há uns quinze minutos atrás.
– A mamãe iria adorar ter todos os filhos reunidos. – Uma voz feminina abafada suspirou do outro lado da linha – Até o Paulo veio de Pernambuco. Só vai faltar você.
– Não vai faltar ninguém, Rita. Te prometi que apareço lá às dez.
– Ela já vai estar dormindo nesse horário, você sabe o quanto aqueles remédios dão sono. – Ouço Rita resmungar. – O almoço está marcado para o meio dia e você quer aparecer às dez da noite?

Observo com o canto de olho enquanto ele aperta a testa entre os dedos, impaciente.
– Então eu cumprimento todos vocês no dia 26, está bom assim?
– Não, Rodrigo. O Natal é amanhã, não na sexta-feira.
– Pelo amor de Deus, Rita. O Natal hoje em dia é só comércio, todo mundo sabe disso. E quando der meio dia, um monte de gente vai estar correndo para a mercearia depois de perceber que esqueceram a carne ou a bebida para o churrasco. Não posso fechar mais cedo e perder dinheiro assim.

– É só um dia, não vai te fazer toda essa falta.
Ele revirou os olhos e conferiu as horas no relógio de pulso.
– Ah, qual é. Você sabe que eu estou economizando para comprar um carro.
– Rodrigo, você trocou a porcaria do carro há seis meses.
– Não começa. Vou comprar um para a mãe.
– Ela está doente! ー Rita gritou tão alto que até me encolhi no banquinho, e a conversa nem era comigo – Não pode dirigir há anos!

– Tá bom, que seja. O circular chegou. Te vejo amanhã às dez. Beijo, irmã.
O circular chegou, de fato. As rodas desaceleraram próximas ao meio fio e a porta da frente se abriu para a calçada. Rodrigo desligou a chamada, e acho que me arrependi de ouvir toda a conversa. Equilibro as várias sacolas no braço direito e subo as escadas do ônibus enquanto tento afastar sua voz da cabeça.
Vou atravessando o corredor entre os bancos, meio aos tropeços, e encontro um assento vazio ao lado de uma senhora. Ela está carregada de sacolas, assim como eu. Na verdade, se olho ao redor, consigo ver que quase todos estamos.

É 24 de dezembro e já são quase seis horas da tarde. Parece ser o prazo final para as compras de presentes de última hora.
Enquanto ouço o som contínuo da catraca girando, não consigo deixar de me perguntar se essas pessoas também acreditam que o Natal já não passa de comércio hoje em dia.
Fico olhando para a janela ao longo do caminho, e a senhora ao meu lado faz o mesmo. Não vai demorar muito para anoitecer. As luzes enroladas nos troncos das árvores vão se acender e, em breve, as pessoas aqui vão estar comemorando em algum lugar.
Mas não o Rodrigo, penso.
Mal o conheço, não sei ao certo porque isso me incomodou dessa maneira. Talvez seja apenas a inconveniência de perceber que o mundo parece se acinzentar depois que a gente cresce.

Há algum tempo, eu era uma criança e o Natal era mágico. Os dias eram feitos de expectativa, e as noites se resumiam em correr atrás das músicas natalinas que ecoavam pelos carros nas ruas.
É isso que acontece quando os anos passam? A correria, as contas a pagar e a frieza se tornam tudo o que temos? A festa que deveria ser sobre o amor se torna apenas comércio?
Acho que me incomoda porque não é nesse mundo que eu esperava viver. Queria continuar correndo pelas ruas atrás das músicas natalinas e contando os segundos para a meia-noite com brilho nos olhos infantis.

Queria que tudo continuasse parecendo um pouco mágico e suave, mas agora imagino que isso talvez não passe de uma esperança vã.
Não consigo parar de pensar no Rodrigo. Não consigo parar de pensar que o dinheiro que ele espera ganhar amanhã nunca vai ser capaz de comprar o tempo perdido.
Mal percebo que estou mordendo o lábio e franzindo a testa até notar que a senhora ao meu lado me encara, parecendo preocupada.
– Você está bem, menina? – Ela pergunta.
Abro um sorriso meio envergonhado.
– Estou sim.

Ela sorri de volta.
– Está certo. Também veio fazer compras de última hora?
– Sim. – Respondo – Não tive muito tempo para buscar os presentes antes.
– É, a vida é uma correria que só, né? – Ela volta a olhar pela janela. Quando fala mais uma vez, é com um tom pensativo – A gente só não pode deixar o espírito do Natal morrer.
Não consigo evitar: fico olhando para ela como olharia para uma estrela cadente jogada bem aos meus pés. É um pouco surreal, quase como se a mulher soubesse o que eu estava pensando.

– E o que é o espírito do Natal para a senhora? – Pergunto, em um ato impulsivo.
Ela sorri de forma emotiva enquanto encara as sacolas de presentes apoiadas no colo.
– Se o Natal representa o aniversário de Jesus, que nasceu por amor…
– A mulher ergue os olhos para encontrar os meus – Então o espírito natalino deve ser sobre celebrar tudo aquilo que amamos e nos mantém de pé, você não acha?
Respiro fundo, absorvendo as palavras. Acho que entendo o que ela quer dizer.
A magia infantil não dura para sempre, isso é fato: a correria, as contas a pagar e a frieza surgem inevitavelmente, em algum momento. Mas viver tudo isso só faz sentido e só se torna menos enlouquecedor quando temos algo a que nos apegar.

O amor das pessoas, amor pelos sonhos, amor por nós mesmos. É o que fica quando o resto desmorona.
Não me entenda mal: em suas diferentes formas, o amor também tropeça. Também vacila, também engana. Às vezes, a gente enxerga amor onde não há. Mas quando é real, o amor se torna aquela coisa pela qual vale a pena lutar.
A indiferença do cotidiano não consegue tomar conta de quem vive com amor. E, no fim das contas, acho que não existe data melhor para cultivar esse sentimento do que o Natal.
Percebo que a senhora espera uma resposta. Digo que ela está certa, porque acho que está.
Quando olho pela janela mais uma vez, percebo que o céu começou a escurecer lentamente. As luzes em torno das árvores já se acenderam.
Persistir com paixão nos fez sobreviver a mais um ano, e estou a poucas horas de comemorar a vida com as pessoas que amo.
Por um instante, o mundo volta a ser mágico.














