Natal

Victoria Mazarini

Eis que as luzes se alteiam, trêmulas e vivas,
E o mundo se reveste em puro resplendor;
— Meu pai, ponde luzes em nosso portão, rogáveis, ó donzela cativa,
Como quem implora ínfimo retalho de cor.
Ai de mim, quanta saudade me fere o peito,
Dos Natais que o Tempo implacável levou…
Da mesa farta, singela em seu jeito,
Onde o pão e o vinho se erguiam em louvor
Ao meu Cristo, eterno Redentor.
Sinto o odor de família —
Aroma de riso, de amplexo, de amor.


Recordo a mesa longuíssima na garagem de meu avô,
Que dantes se enchia de almas, qual brando fulgor.
Hoje já não se aperta como outrora se apertou,
Mas ainda ressoa tua voz, ó menino inocente,
Soprando enredos ao vento,
Tal serafim murmurando sutil fervor.
E diziam, então, que o pequenino,
De esperança maior que o corpo pequenino,
Rogava ao bom Pai Natal por novos sapatinhos,
Crendo que o ancião, em seus árduos caminhos,
Na lida ligeira do fatigoso diário,
Houvera olvidado seu pedido simplório.


Ah, quão a inocência, pura e sem mácula,
Erige prodígios que o mundo não calcula…
E cada Natal, conquanto mude em feição,
Conserva o mesmo e sacratíssimo desígnio em seu coração:
Abrandar os homens, reacender o bem,
E restaurar o amor que jamais se desfaz,
Ainda que o tempo o leve além.


Assim escrevo estes versos em prece,
Erguendo altíssima minha oração,
Para que o Altíssimo inflame, em cada peito,
A chama viva da santa compaixão.
Ó Jesus — que por mim, por ti, por nós padecestes —
Dignai-Vos assentar-Vos à mesa deste lar;
E que Vosso lume sacrossanto jamais se extinga,
Para que o pão não mingue,
Para que o amor não cesse,
E para que cada coração reencontre, enfim,
O milagre de renascer…
Em Vosso nome augusto,
E em Vosso olhar eterno, sem fim.

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