Durante a Quaresma, Igreja propõe período de oração, jejum e caridade com foco em ações concretas na cidade
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) realizou no dia 18 de fevereiro, Quarta-Feira de Cinzas, em Brasília (DF), a abertura oficial da Campanha da Fraternidade 2026. Com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a proposta convida a Igreja e a sociedade a refletirem sobre a moradia como condição essencial para a dignidade humana. Em Vargem Grande do Sul, as cinco paróquias já desenvolvem atividades relacionadas ao tema durante o período da Quaresma.
Em entrevista à Gazeta de Vargem Grande, o padre Agnaldo José dos Santos, pároco da Paróquia Santa Luzia e São João Paulo II, explicou que a Campanha da Fraternidade é vivida sempre a partir da Quarta-feira de Cinzas, juntamente com o início da Quaresma. Segundo ele, trata-se de um período marcado por três práticas centrais: oração, jejum e caridade.
“São 40 dias em que somos chamados à oração, ao jejum e à prática da caridade. A cada ano, a Igreja escolhe um tema para ser trabalhado nas celebrações, nas reflexões e nas ações concretas das comunidades”, afirmou.
Neste ano, o foco é a realidade habitacional. Dados apresentados pela CNBB apontam que 6,2 milhões de famílias no Brasil não possuem moradia adequada e cerca de 328 mil pessoas vivem em situação de rua. Para o sacerdote, a escolha do tema direciona o olhar para uma situação presente também na realidade local.
Aplicação do tema na cidade
Padre Agnaldo destacou que, em Vargem Grande do Sul, as cinco paróquias estão inseridas em diferentes bairros, o que facilita o conhecimento direto das necessidades. Ele explicou que a Paróquia Santa Luzia e São João Paulo II, por exemplo, atende 11 bairros. “Cada paróquia conhece a sua realidade. Sabemos que há pessoas que não têm casa própria, que pagam aluguel sem condições financeiras ou que vivem em moradias precárias. A partir desse conhecimento, podemos agir”, declarou.
Segundo ele, a proposta é que, ao longo da Quaresma, as equipes da Campanha da Fraternidade em cada paróquia acompanhem as situações identificadas e, posteriormente, realizem reuniões entre padres e lideranças para avaliar encaminhamentos. “Podemos nos reunir para pensar o que apoiar e que projetos indicar. Podemos dialogar com o poder público, com a assistência social e também com iniciativas privadas que estejam trabalhando com moradia”, explicou.
O sacerdote ressaltou que a Igreja pode tanto apoiar quanto organizar ações. Ao conhecer famílias desabrigadas ou em situação de vulnerabilidade, as paróquias podem indicar casos a projetos municipais, estaduais ou federais, além de colaborar com iniciativas comunitárias.
Jejum, conversão e gesto concreto
Ao abordar o jejum, padre Agnaldo enfatizou que ele deve ir além da abstinência individual. “O jejum tem um caráter espiritual, é um sacrifício que fortalece interiormente. Mas ele precisa se transformar em compromisso exterior”, afirmou. Ele alertou que abrir mão de algo sem finalidade solidária pode se limitar a uma economia pessoal. “O jejum verdadeiro é tirar aquilo que você mais gosta e transformar isso em gesto concreto”, disse.
Como exemplo, relatou o caso de uma criança que decidiu não tomar sorvete durante a Quaresma, mas encontrou dificuldade para cumprir o propósito. “Eu disse a ele que, se fez a promessa, precisava perseverar. Depois, o dinheiro que deixasse de gastar com sorvete poderia ser doado na coleta da Campanha da Fraternidade”, contou.
Segundo o padre, a prática do jejum, unida à oração, deve resultar em caridade. A coleta do Domingo de Ramos é um dos principais gestos concretos da Campanha. Os recursos arrecadados são encaminhados à Diocese de São João da Boa Vista, que destina parte à CNBB e aplica outra parte em projetos sociais selecionados na região.
Amor ao próximo e responsabilidade compartilhada
Padre Agnaldo destacou que a essência da Campanha está na fraternidade, entendida como reconhecimento do outro como irmão. Ele afirmou que a atenção deve começar pelas situações mais próximas. “Às vezes, a pessoa que precisa está ao nosso lado, no mesmo bairro, na escola ou no trabalho. Pode ser uma casa com o telhado danificado, uma família sem alimento ou alguém doente. Nem sempre conseguimos resolver tudo, mas podemos encaminhar, mobilizar pessoas e buscar ajuda junto à prefeitura ou à comunidade”, afirmou.
Para ele, o compromisso cristão exige ação concreta. “Não é a quantidade que importa. Se eu ajudei uma família, já fiz muito. Fazer o bem por amor, sem exposição, é viver o espírito da Campanha”, concluiu.
A Campanha da Fraternidade 2026 segue ao longo da Quaresma, período em que as comunidades são chamadas a refletir, conhecer a realidade local e desenvolver iniciativas voltadas à promoção da dignidade humana por meio do acesso à moradia.












