O Dia do Trabalho chega este ano com uma discussão que tem mobilizado o debate nacional: o fim da escala de trabalho 6×1. Para uma cidade como Vargem Grande do Sul, onde o comércio é um dos maiores empregadores, onde o orçamento municipal é apertado e o desemprego segue preocupante, a discussão ganha urgência. A mudança em tramitação no Congresso Federal diz respeito diretamente à vida de quem acorda cedo seis dias por semana para atender o público, repor prateleiras, operar caixas e sustentar a família com o que sobra depois de pagar as contas e, muitas vezes, com o que não sobra.
O recorde histórico de endividamento das famílias brasileiras, que chegou a 80,4% em março, é o pano de fundo dessa conversa. Não por acaso, são justamente os trabalhadores que cumprem jornadas com folga mínima, os que mais recorrem ao crédito fácil para fechar o mês. Cansaço e endividamento andam juntos quando o salário não acompanha o custo de vida e o intervalo entre uma semana e outra é insuficiente.
A flexibilização da escala 6×1 é uma pauta legítima, justa e necessária. Ter dois dias de descanso por semana não é privilégio, é condição mínima para que qualquer pessoa possa exercer sua cidadania com dignidade. As trabalhadoras do comércio de Vargem que contaram à Gazeta sobre a dupla jornada, sobre filhos, casa e atendimento ao público, não estão pedindo favor. Estão reivindicando o que já é realidade em boa parte do mundo desenvolvido.
No entanto, seria irresponsável defender a mudança sem reconhecer os riscos reais que ela impõe a uma cidade de economia modesta como a de Vargem. Os empresários ouvidos pela reportagem têm razão quando apontam a escassez de mão de obra, a carga tributária elevada e a dificuldade de repassar custos sem perder clientes em uma cidade de baixo poder aquisitivo. Em Vargem, onde pequenos e médios negócios respondem pela maior parte dos empregos formais, uma implementação sem contrapartidas pode deixar trabalhadores ainda mais vulneráveis do que estão.
O caminho não deveria ser o de escolher entre qualidade de vida e economia. Seria exigir que a mudança venha com planejamento e políticas públicas que amparem quem emprega. Incentivos fiscais, desburocratização e prazos de transição adequados são necessários para que a reforma funcione de verdade. E dignidade no trabalho não se conquista apenas com legislação, mas com vontade política e o reconhecimento de que quem trabalha merece mais do que um dia de folga por semana para viver.
Foto: Agência Brasil












