
Apesar das condições favoráveis, o programa tem pontos que merecem atenção. A adesão ao Novo Desenrola implica o bloqueio do CPF por 12 meses em plataformas de apostas online, o que pode ser visto como uma restrição à liberdade do consumidor, ainda que justificada pelo governo como medida de proteção financeira. Críticos também alertam que descontos elevados e juros reduzidos, embora benéficos no curto prazo, não eliminam as causas do endividamento, e que sem educação financeira o risco de reincidência é alto.
Vale lembrar ainda que o programa tem prazo fixo de 90 dias e abrange apenas dívidas contratadas até 31 de janeiro de 2026 com atraso entre 90 dias e dois anos, deixando de fora quem está em situações distintas, como inadimplências mais recentes ou dívidas de outras modalidades de crédito não contempladas pelas regras.
Economistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV) alertam também, que o programa tem limitações estruturais importantes. Ao oferecer condições vantajosas exclusivamente aos inadimplentes, o Novo Desenrola cria um problema de risco moral: diminui o estímulo ao pagamento em dia das dívidas e abre a perspectiva de recorrência, funcionando para as famílias de forma semelhante ao que os sucessivos programas de refinanciamento fiscal representam para o planejamento tributário das empresas.
A análise lembra que o primeiro Desenrola, lançado em 2023, não impediu que o número de inadimplentes voltasse a crescer logo após o encerramento do programa, atingindo pouco mais da metade da população adulta no início de 2026, o que pode levar a crer que os efeitos da versão atual também tendem a ser temporários.
Outro ponto contestado é o uso de recursos públicos como garantia para operações privadas, especialmente em um momento de dificuldade nas finanças governamentais. Para os pesquisadores da FGV, o nó central permanece sem solução: falta letramento financeiro à população, especialmente à de baixa renda, e sem atacar as questões mais fundamentais que levam ao endividamento excessivo, o programa não quebrará o círculo vicioso que assola as finanças familiares.











