
O país que segurou Espanha e Uruguai e jogou de igual para igual com a Argentina de Messi agora quer conversar com o mundo – e escolheu dialogar primeiro
Semanas depois de os Tubarões Azuis pararem o planeta na Copa, Cabo Verde vive outra estreia histórica: um movimento de diálogo popular que pode levar o jurista Milton Paiva à Presidência – e reaproximar o arquipélago do Brasil nos negócios, na educação e no turismo.
Em junho, meio bilhão de pessoas descobriu no mapa um arquipélago de dez ilhas perdido no meio do Atlântico. Cabo Verde, país de pouco mais de meio milhão de habitantes que fala português e canta em crioulo, estreou em Copas do Mundo segurando a Espanha, arrancou um empate do Uruguai e só se despediu do torneio na prorrogação, diante da Argentina de Messi, depois de vender caríssimo cada minuto de jogo. No Brasil, a zebra simpática virou paixão nacional instantânea – e, terminado o Mundial, deixou uma pergunta no ar: afinal, que país é esse?
A resposta talvez esteja começando a ser escrita agora, longe dos gramados. No dia em que os holofotes do futebol se apagaram, acendeu-se outro palco no arquipélago: o da eleição presidencial de novembro de 2026. E o nome que movimenta a conversa é o de um advogado que decidiu disputar o cargo mais simbólico do país com um método pouco usual na política de qualquer lugar do mundo – dialogar antes de decidir.
“Não anuncio uma candidatura”
Milton Paiva, jurista formado entre Lisboa, Paris e Genebra, ex-deputado nacional e especialista em direito de investimentos para a União Africana, formalizou neste mês, junto a partidos políticos e grupos da sociedade civil, a sua disponibilidade para concorrer à Presidência da República de Cabo Verde. O anúncio, feito nas redes sociais e repercutido pela Rádio Cabo Verde e pelo jornal O País, veio com uma inversão deliberada da liturgia eleitoral.
“Não anuncio uma candidatura”, escreveu. “Anuncio apenas aquilo que ninguém pode fazer por nós: estar disponível para servir.”
A frase não é retórica de ocasião – é o desenho do projeto. Se avançar, a candidatura será formalizada por subscrição dos próprios cidadãos, como prevê o sistema cabo-verdiano. “Será sempre uma decisão dos cidadãos subscritores. Nunca de um homem sozinho”, afirma Paiva.
O veículo dessa construção coletiva tem nome e número: Manifesto 53 (manifesto53.org). O batismo vem do dado mais incômodo da democracia cabo-verdiana, uma das mais sólidas e premiadas do continente africano: nas últimas eleições, 53% dos eleitores ficaram em casa – mais de 416 mil pessoas. “O maior partido de Cabo Verde não tem sede”, provoca o movimento. Não seria apatia, diz o diagnóstico, mas a ausência de uma política que fale verdadeiramente com o seu povo.
A presidência que começa com diálogo
A ideia central do projeto cabe numa frase que funciona como lema: “A presidência começa com diálogo.” Antes de apresentar respostas fechadas, o Manifesto 53 abre um processo de diálogo permanente que percorrerá as nove ilhas habitadas do país – debates de bairro, encontros com jovens e pescadores, lives com a diáspora espalhada pelo mundo e canais permanentes onde qualquer cidadão registrará o que quer e o que precisa. É desse material bruto, e não de gabinetes fechados, que será construída a visão presidencial.
Por trás do método, uma tese sobre o que é a política real: ela se faz com o povo e para o povo – e não a partir dos interesses econômicos de grupos específicos. “Dialogar primeiro. Decidir depois”, resume o movimento.
Desse diálogo já emergiram cinco ideias estruturantes que dão musculatura ao debate: voto eletrônico seguro e acessível a todos, incluindo a diáspora; combate frontal ao voto comprado; campanhas de proximidade, com debates obrigatórios em todas as ilhas; limitação de dois mandatos para todos os cargos executivos; e a criação de um Senado com regionalização real, para que cada ilha decida sobre seus recursos, sua educação e sua saúde.
“Já é possível uma cidadania mais focada na mensagem, na proximidade, nas ideias e na inovação, do que em pagar pessoas ou comprar consciências.”
Sobre o dinheiro que move as eleições, Paiva não faz rodeios: “Gasta-se uma fortuna. Uma fortuna do Estado, dos impostos, mas também fortunas privadas. Acho que é inadmissível. No tempo em que vivemos, com as redes sociais, já é possível uma cidadania mais econômica.”
Um guardião com passaporte carimbado
No semipresidencialismo cabo-verdiano, o Presidente da República não chefia o governo – é o guardião da Constituição, o moderador entre os poderes e o primeiro diplomata do país. O perfil, argumentam os apoiadores, parece talhado para o currículo de Paiva.
Natural de São Domingos, na ilha de Santiago, ele se licenciou em Direito em Lisboa, fez mestrado em Direito Internacional Público na Panthéon-Assas, em Paris, pós-graduação em Coimbra e formação executiva no prestigiado IHEID de Genebra, com passagens pela Organização Mundial da Saúde e pelas embaixadas cabo-verdianas em Paris e Lisboa. De volta ao país, foi vereador, deputado nacional, assessor jurídico do Ministro das Finanças e professor de Direito Constitucional em três universidades. Fora dele, tornou-se Consultor Nacional da CEDEAO – o bloco econômico da África Ocidental – para a harmonização de leis de investimento e especialista em direito de investimentos para a União Africana.
“Me sinto um cidadão preparado”, disse à Rádio Cabo Verde. “Um cidadão do mundo do direito, da advocacia, que conhece bem a Constituição, conhece a cultura do país, conhece todas as ilhas de Cabo Verde, tem atuação tanto no setor público como no privado, no associativismo, no voluntariado, e que conhece o mundo.”
O que ele defende para o cargo é, no fundo, uma mudança de critério de escolha: “Não acredito que o próximo Presidente deva ser escolhido apenas pelo currículo governativo, pela idade ou pela força partidária. Deve ser escolhido pela capacidade de distanciamento, independência, criação de consensos, renovação e de preparar Cabo Verde para os desafios dos próximos 25 ou 50 anos.”
E o Brasil com isso? Tudo.
É aqui que a história deixa de ser apenas curiosidade internacional e passa a interessar diretamente ao empresário, ao investidor e ao viajante brasileiro.
Cabo Verde reúne uma combinação que praticamente nenhum outro mercado oferece ao Brasil de uma vez só: fala português, tem democracia estável desde 1991, moeda atrelada ao euro, Parceria Especial com a União Europeia e assento na CEDEAO – o que significa acesso preferencial a um mercado africano de centenas de milhões de consumidores. Tudo isso a poucas horas de voo do Nordeste brasileiro, no meio do caminho entre três continentes.
A visão atlântica defendida por Paiva quer transformar essa geografia em política de Estado – e já tem iniciativas concretas de partida. O IPDD.CV (Instituto Politécnico Democracia e Desenvolvimento, do qual Paiva é cofundador, primeiro presidente e membro) lançará o MBA Africa, uma formação executiva 100% online construída por um consórcio de quatro países, com uma instituição brasileira em papel central: o CESV, Centro de Ensino Superior de Vitória, responsável pela acreditação acadêmica, ao lado de parceiros de Cabo Verde, Senegal e Nigéria.
E o Atlantic Bridge Hub – Centro de Empreendedorismo, Inovação e Internacionalização de Cabo Verde – nasce para ser o ponto de aterrissagem de startups e empresas que queiram usar o arquipélago como base de expansão para os dois lados do oceano: segurança jurídica de matriz europeia de um lado, mercados africanos em crescimento do outro.
Na prática, o cardápio de oportunidades é extenso. Do lado brasileiro: alimentos, construção civil, tecnologia, franquias, gestão hoteleira e serviços – num país turístico em plena expansão que importa a maior parte do que consome. Do lado africano: café, cacau, pescado, música e economia criativa rumo ao mercado brasileiro. E, para quem pensa grande, Cabo Verde como plataforma de reexportação para a África Ocidental e trampolim de negócios para Portugal, Espanha e o sul da Europa.
O turismo, turbinado pela visibilidade da Copa, completa o quadro: praias de águas mornas o ano inteiro, segurança, voos curtos e a famosa morabeza – a hospitalidade que os cabo-verdianos consideram patrimônio nacional.
A pergunta que fica
No post em que anunciou sua disponibilidade, Paiva contou que, em meses de conversas com jovens, empresários, acadêmicos e membros da diáspora, encontrou sempre a mesma inquietação: “Que Cabo Verde queremos deixar aos nossos filhos? A minha geração cresceu na liberdade. Recebeu uma democracia estável. Mas não fomos chamados apenas para agradecer o passado. Fomos chamados para construir o futuro.”
O mundo conheceu Cabo Verde pela garra dos Tubarões Azuis. Nos próximos meses, pode conhecê-lo por algo ainda mais raro no cenário global: uma eleição presidencial que começou não com promessas, mas com uma pergunta – e com alguém disposto a construir a resposta em diálogo.
SERVIÇO
Manifesto 53 – manifesto53.org · Milton Paiva nas redes: @miltonpaiva1 (Instagram) · facebook.com/miltonpaiva2021
Contato para imprensa no Brasil: Agência Ulysses – contato@agenciaulysses.com.br · +55 (11) 99482-0330 · Cabo Verde está 2h à frente de Brasília











