O El Niño, aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial que altera a circulação da atmosfera e influencia o clima em diversas partes do mundo, se intensificou ao longo do último mês e passou a ter 81% de probabilidade de atingir a categoria “muito forte” entre outubro e dezembro de 2026, segundo estimativa divulgada pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) em 9 de julho, um salto em relação aos 63% estimados no mês anterior.
A agência também elevou para 97% a chance de o fenômeno permanecer ativo até o período entre março e junho de 2027, o que corresponde à primavera no Hemisfério Norte e ao outono no Hemisfério Sul. A nova atualização acendeu sinal de alerta para o agronegócio global: além do Brasil, países como Austrália, Índia, Indonésia e partes da África também podem enfrentar mudanças relevantes no regime de chuvas, com reflexos na oferta mundial de alimentos, o que tende a provocar movimentos nos preços internacionais das commodities agrícolas.

Especialista explica impactos locais
Para entender os efeitos do fenômeno na região de Vargem Grande do Sul, a Gazeta de Vargem Grande ouviu o engenheiro agrônomo Ciro Staino Manzoni, da Casa da Agricultura, vinculada à Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. “O El Niño merece atenção urgente dos agricultores neste ano porque há uma alta probabilidade do fenômeno atingir a categoria de ‘muito forte’ (Super El Niño) entre outubro e dezembro. As projeções indicam que ele pode se consolidar como um dos eventos mais intensos desde 1950, estendendo-se até o início de 2027 e trazendo ameaças severas de quebra de safra, volatilidade de preços e calor extremo”, destacou.
Sobre os motivos que levam especialistas a classificar o fenômeno como um dos mais intensos das últimas décadas, o engenheiro explicou: “Especialistas classificam o El Niño atual como preocupante devido à alta probabilidade (estimada em mais de 80%) de se configurar como um ‘Super El Niño’, com anomalias de temperatura no Oceano Pacífico. Esse cenário potencializa eventos climáticos extremos, como secas severas no Norte e Nordeste, e chuvas catastróficas na região Sul”, informou Ciro.
Ciro pontuou que a região de Vargem Grande do Sul não deve ficar imune ao fenômeno. “O clima fica mais seco, com agravamento da estiagem, longos períodos sem chuva e forte elevação das temperaturas, o que eleva exponencialmente o risco de incêndios florestais e afeta negativamente a qualidade do ar e a agricultura”, disse.

Culturas mais suscetíveis
Em relação às culturas agrícolas do município que podem sofrer mais com as mudanças climáticas, o agrônomo afirmou que nenhuma lavoura está isenta de risco. “Todas as culturas podem ser afetadas. Culturas como milho, soja, cana-de-açúcar, café e olerícolas, como alface, rúcula, couve e etc, e frutíferas”, elencou. “O excesso de calor provoca aborto das flores, baixa polinização e fecundação dos frutos, queda de frutos, baixo desenvolvimento das plantas, má formação de tubérculos e frutos, podendo levar até a morte se estiverem em estágio inicial e sem sistema de irrigação”, explicou o engenheiro agrônomo.
Ciro observou que a pecuária também sofre com o El Niño. Sobre o impacto do fenômeno neste setor, ele destacou o baixo desenvolvimento das pastagens, diminuindo a capacidade de manutenção e engorda dos animais, além de riscos de queimadas.

Produtores devem se preparar
Questionado se já é hora de os produtores adotarem medidas preventivas, Ciro foi enfático: “Sim, o agricultor deve adotar medidas preventivas imediatas, pois o fenômeno afeta diretamente as condições climáticas nas lavouras”, sentenciou.
Ele também elencou que entre as práticas essenciais para proteger a lavoura em São Paulo estão o manejo e conservação de água, com a adoção de sistemas de irrigação eficientes e foco em técnicas de cobertura de solo para reter umidade durante os períodos de estiagem. Há também a necessidade de se efetuar o monitoramento climático, acompanhando diariamente boletins regionais para ajustar janelas de plantio e pulverização, evitando condições extremas. Ciro destacou também a escolha de cultivares, orientando os agricultores a priorizar sementes mais tolerantes a estresses hídricos e térmicos.
“É fundamental que faça um adequado manejo de conservação de solo, com práticas conservacionistas como terraços em nível; cacimbas, que ajudam a manter a água na propriedade e impedem erosões; cobertura vegetal e manejo da irrigação. Lembrando que o El Nino além de seca, pode ocasionar tempestades fortes e isoladas. Se o solo não estiver protegido, há perdas de solo e da lavoura”, observou.
Alternativas
Para os pequenos produtores, que muitas vezes não têm acesso a tecnologias mais caras, Ciro apontou que alternativas de baixo custo. Segundo ele, a construção de curvas de nível e cacimbas, evitar deixar o solo exposto, empregando adubação verde, cobertura morta, aplicação de matéria orgânica no solo, são práticas que mantém umidade no solo, melhoram a infiltração de água e melhoram a disponibilidade de água no lençol freático. “Solo descoberto tem alta perda de água por evaporação”, lembrou.
Ao final da entrevista, Ciro deixou uma mensagem aos agricultores do município diante do cenário previsto para os próximos meses: “Os produtores de Vargem Grande do Sul são profissionais, trabalhadores e conscientes das suas respectivas atividades produtivas. Muitas vezes, os resultados financeiros e da produção fogem de suas responsabilidades, sendo fruto de fatores externos. A mensagem é que fiquem atentos nos meses de dezembro e janeiro ao calor extremo e que se preparem para altos riscos de incêndios”, disse.












