
Falar do espírito da Romaria dos Cavaleiros de Sant’Ana sem mencionar o dr. Antônio Carlos Ranzani, seria uma grande injustiça por tudo que ele representou para esta que é considerada uma das maiores manifestações religiosas e culturais de Vargem Grande do Sul e região. Falecido no ano passado, no dia 24 de setembro de 2025, aos 88 anos, Ranzani também foi um dos médicos mais tradicionais e queridos de Vargem Grande do Sul.
Ao longo de décadas, desde as primeiras romarias realizadas, seu nome tornou-se indissociável da Romaria, não apenas pela participação na organização, mas principalmente pela forma como compreendia o verdadeiro significado da celebração. A comitiva da sua família, a do Rancho Bisturi, era uma das mais aguardadas pelos devotos que acompanhavam a procissão montada.
Para ele, a Romaria dos Cavaleiros de Sant’Ana nunca foi apenas um grande desfile de cavaleiros. Era, acima de tudo, uma manifestação pública de fé, uma homenagem à padroeira do município e um momento de encontro entre famílias, amigos e gerações unidas pela devoção a Sant’Ana. Essa visão contribuiu para preservar a essência religiosa da romaria mesmo diante de seu crescimento e da grandiosidade que o evento alcançou ao longo dos anos.
Dr. Ranzani sempre defendeu que cada detalhe da romaria deveria refletir respeito à tradição. Da organização do cortejo à participação das comitivas, da valorização dos carros de boi ao protagonismo dos estandartes religiosos, sua preocupação era garantir que o evento jamais perdesse sua identidade. Para ele, a força da romaria estava justamente no equilíbrio entre a cultura rural e a fé cristã que inspirou seus fundadores.
Para o filho Lucas Ranzani, era muito importante para seu pai participar das romarias, não só pela tradição da família, que acompanhou a evolução da festa desde seu início, mas por ela ter acima de tudo um caráter religioso. Lembra de uma passagem de seu pai como presidente da Comissão Organizadora e o convite feito ao padre Cipolini para participar da Comissão de Frente, montado. “Foi um motivo de muito orgulho ele ter conversado com padre Cipolini e o mesmo ter aceitado sair na romaria montado. Eu acho que isso não acontece em nenhuma romaria do Brasil”, comentou Lucas. Para ele, foi um grande legado a participação do padre, pois fortaleceu a participação da Igreja, que representa toda a Diocese junto à Romaria. Padre Cipolini participou montado em uma mula que foi de Ditão Ranzani e amansada por Lucas Ranzani, chamando a atenção de todos pela novidade.
Ao celebrar os 50 anos da Romaria dos Cavaleiros de Sant’Ana, é justo reconhecer aqueles que contribuíram para que ela chegasse até aqui. Entre essas pessoas, Dr. Ranzani ocupa um lugar de destaque. Seu trabalho, sua dedicação e sua visão ajudaram a fortalecer uma tradição que hoje faz parte da identidade de Vargem Grande do Sul.
Porque algumas pessoas não apenas participam da história; elas ajudam a construí-la. E, ao falar do espírito da Romaria dos Cavaleiros de Sant’Ana, lembrar de Dr. Ranzani é reconhecer alguém que compreendeu, viveu e transmitiu os valores que fazem dessa celebração um patrimônio de fé, cultura e união para todo o povo vargengrandense.
Tradição familiar
A raiz de seu amor pela Romaria certamente veio do seu pai, o conhecido Ditão Ranzani, também pioneiro da Romaria dos Cavaleiros de Sant´Ana, falecido em dezembro de 1987. Ditão participava de todas as romarias, ajudou muito a consolidá-la, inclusive trazendo antigos peões para compor a Comissão de Frente da Romaria, da qual sempre fez parte. Era peão que ainda jovem conquistou sua independência econômica trabalhando na doma de animais, sustentou a esposa Ana e estudou os filhos Antônio Carlos e Célia Ranzani, nos dizeres de José Luiz Avanzi, genro de Ditão, em depoimento prestado à Gazeta em 1993.
Em 1996, o touro “Banana”, de sua propriedade, foi uma das atrações do rodeio daquele ano, realizado no Centro Poliesportivo da Vila Santa Terezinha, após a Romaria. Era na propriedade de sua família, a Fazenda Bisturi, que naquela época as boiadas que iriam participar do rodeio ficavam, uma maneira também de contribuir com o sucesso da festa.
Em julho de 1998, quando presidia a Comissão Organizadora da Romaria dos Cavaleiros de Sant´Ana, dr. Ranzani foi entrevistado pela Gazeta de Vargem Grande e falou da grande estima que tinha pelos cavalos, animais que muitas vezes o conduziram na infância e na juventude para realizar seus estudos. Confessou que a Romaria para ele era pura fé. “Se eu acredito em Deus, na mãe de Cristo, no Cristo, o verdadeiro sentido está no reverenciar em que eu acredito. Nada mais digno do que vir a cavalo, não para mostrar o cavalo, e sim para reverenciar a Romaria”, sentenciou na época.
Junto com a esposa Isa Lemos Ranzani – outra entusiasta da Romaria e sempre desfilando junto ao marido – e os filhos Tiago, Lucas, Pedro e João Paulo, dr. Ranzani procurou manter viva a tradição familiar e os vínculos com a sua origem no meio rural, através da Romaria dos Cavaleiros de Sant´Ana. Em 2010, seu filho Lucas Ranzani também presidiu a Comissão Organizadora da Romaria.
Vargem Grande do Sul “Pérola da Mantiqueira“
Nossa Senhora Sant’Ana Padroeira
(…)
Bem no centro da cidade
a Matriz é a majestade
protegendo a praça inteira;
vinte e seis de julho é o dia
da preciosa romaria
de Sant’Ana, a padroeira.
Nesta data os cavaleiros
vêm de longe, são romeiros,
vêm cumprir sua devoção;
cada um dá o que tem
e o romeiro tem também
muita fé no coração.
Muito respeito e carinho
com esse dia certinho
de mostrar o querer bem;
pois foi montando animais
que os Reis Magos orientais
viram Jesus em Belém.
(…)
Dr. Antônio Carlos Ranzani
Publicado originalmente na Gazeta de Vargem Grande em Julho de 1985











