Editorial: Divergir é democrático, perseguir não é

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito no último domingo com mais de 64 milhões de votos, 51,79% dos válidos, a maior votação já obtida por um candidato à Presidência. A disputa foi apertada, mas o resultado foi estabelecido. Em uma democracia, é aí que a eleição termina. Quem perdeu reconhece, quem ganhou governa, e o país segue.
Mas nos últimos dias multiplicaram-se nas redes sociais publicações nada condizentes com o espírito democrático que governa o Brasil desde a década de 1980, como postagens que incentivam a demissão de quem votou em Lula e o boicote a estabelecimentos de empresários que declararam voto no petista.
Há quem veja nisso apenas “a vontade do consumidor”. Não é. Escolher onde comprar é um direito, mas mapear, expor e punir cidadãos pelo voto que deram é outra coisa, é perseguição por convicção política. Em julho de 2025, a 4ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça acolheu recurso do Ministério Público de São Paulo reformando a sentença de absolvição e determinando a condenação de dois moradores de Cafelândia (SP) pela prática do crime de perseguição, configurado no artigo 147-A do Código Penal.
Os réus eram administradores de um grupo de rede social e no período eleitoral de 2022, elaboraram e compartilharam, por diversos meios, uma “lista de boicote” contra comerciantes e profissionais liberais da cidade que não demonstravam apoio à reeleição do então presidente da República, Jair Bolsonaro. A pena imposta foi de 1 ano, 4 meses e 10 dias para um dos réus e de 1 ano, 5 meses e 15 dias para o outro. Ambos foram condenados a reparar danos morais a sete vítimas, no valor de 2 salários-mínimos por vítima lesada.
Mas além disso, a História ensina o que vem depois das listas. Em 1933, a Alemanha nazista começou a marcar os comércios de judeus e a convocar o boicote contra eles, antes de chegar ao resto. Nos Estados Unidos dos anos 1950, as “listas negras” destruíram carreiras de gente acusada de pensar diferente, durante o início da Guerra Fria. No Brasil, a ditadura militar costumava fichar e vigiar cidadãos por suas ideias.
No último domingo, quase 60 milhões de brasileiros votaram em Flávio Bolsonaro (PL). Em Vargem Grande do Sul, o senador teve 15.273 votos, sendo 65,48%, o total das urnas, contra 8.052 votos (34,52%) do presidente reeleito. A imensa maioria dos eleitores que foram às urnas quer trabalhar, criar os filhos e viver em paz. O Brasil é de todos, de quem votou em Lula, de quem votou em Flávio, de quem votou em branco, de quem não votou. A eleição acabou, e o Brasil continua. O futuro se constrói agindo, divergindo, debatendo, mas é um trabalho conjunto e sem perseguição.

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