Superando a dor e criando os filhos

Tadeu Ligabue
Nas reuniões de pauta do jornal, quando se é discutido os assuntos a serem abordados na edição, ficou decidido que iríamos ter como matéria do Dia das Mães, a ser comemorado neste domingo, histórias de mães que superaram com muito amor, trabalho e dedicação, a árdua tarefa de criar os filhos nestes tempos difíceis que vive o Brasil, principalmente com o elevado custo dos alimentos e falta de emprego. Exemplos para todas as mães que trabalham, labutam e não desistem de suas crias.
Novamente nos pusemos a campo para conseguir a personagem da nossa matéria e perambulando pelos bairros da cidade, deparamos com uma cena interessante. Uma mulher carpindo um terreno. Sol bravo da tarde, sua postura era firme e pela simplicidade dos trajes, deu para notar que tinha uma vida difícil, mas que não a impedia de estar naquele local, sujeita ao trabalho braçal para atingir seus objetivos.
Ao jornal, contou que trabalhava mais para ter a mente ocupada, pouco ou quase nada vendia do que tirava da terra, doando parte para uma instituição, outro tanto para o sustento e repartindo o restante com outras pessoas. Produz batata doce, com as quais presenteou o repórter do jornal, planta quiabo, abacaxi, hortaliças, banana e o que mais pode produzir no terreno que nem água tem, se servindo das vizinhas para poder tocar sua horta.
Falei a respeito da reportagem, do jornal, da edição do Dia das Mães e ela prontamente se prontificou a participar. Contou a história de sua vida, como criou os filhos e posou para a foto que sairia na edição de domingo. Vaidosa, fez questão de tirar o boné e ajeitar a longa cabeleira negra que embeleza seu rosto. No dia seguinte, alegando que tinha conversado com seu companheiro, ela pediu para não colocar a entrevista no jornal. Portanto, não vamos citar seu nome e nem sua identificação, mas como trata-se de uma história de luta e superação, vale a pena os leitores tomarem conhecimento da vida de R.A. como a trataremos, pois serve de lição e exemplo para muitas mães atuais.
Tudo começou numa cidade vizinha, quando R.A tinha 23 anos e engravidou. Seu pai então a expulsou de casa e ela foi morar com uma tia, que a acolheu, mas bebia muito e dava trabalho demais para a jovem futura mamãe. Tanto que quando sua filha nasceu, ela deixou a tia e foi morar na rodoviária. “Mas graças a Deus criei ela com respeito, todo mundo me ajudava”, falou.
Contou que com o tempo, sua mãe foi busca-la e ela voltou para casa, sua mãe a acolheu e seu pai a aceitou de volta. Mas, R.A. preferiu deixar sua cidade e veio morar em Vargem Grande do Sul, com uma tia, onde ficou por uns tempos, depois foi morar sozinha com a filha pequena. Nestes mais de 20 anos que mora em Vargem, trabalhou em vários locais, na roça e se aposentou trabalhando em uma cerâmica devido a um acidente que sofreu.
Em Vargem conheceu seu segundo companheiro, com quem teve mais dois filhos, um menino e uma menina, hoje com mais de 18 anos e sobre os quais tem o maior orgulho de falar. Segundo ela, para ajudar a criá-los, também durante muito tempo catou recicláveis na cidade, com os filhos ajudando. Hoje, eles estão todos estudados, com o 3º colegial completo e a filha está fazendo um curso que a orgulha muito.
Mas não foi fácil sua vida. Houve dissabores que podem levar qualquer um ao desespero e ela teve de superar traumas que a levaram a abandonar seu segundo companheiro por sérias questões familiares. Um drama familiar que certamente nos tira o chão e destrói o que de mais sagrado temos.
R.A superou com muita dificuldade tudo, mas as sequelas ficaram, como a depressão com a qual luta e procura dignificar sua vida, buscando através do trabalho e da fé na igreja evangélica da qual participa, se animar e continuar a luta. Vai à igreja com seu atual companheiro, com o qual está noiva, pretende se casar e morar juntos.
“Mãe é aquela que cria os filhos com base no respeito, ensinando o que é certo e o que é errado. Meus filhos pouco saem de casa, só para trabalhar e estudar”, afirmou. A mais velha já se casou e mora em outra cidade com seus dois filhos, netos de R.A.
“Foi sofrido ser mãe. Mãe é a que cria os filhos apesar de todas as dificuldades e nunca os abandona. Quando meus filhos estão tristes, sentamos, conversamos, ensino eles a terem respeito e serem educados. Apesar de tudo que passei, me sinto realizada como mãe, trato os três por igual, nunca os deixei andarem com más companhias”, falou na entrevista.
Tanto R.A. (nome fictício) como seu companheiro, devem ter pensado sobre a entrevista e resolveram que não queriam que a mesma fosse contada, com sua foto e identificando-os. Certamente procuram se preservar e levar a vida adiante. Respeitamos e não colocamos a foto, os seus nomes e dos filhos. Mas a história de superação merece ser contada porque nos torna mais humanos, nos faz acreditar que apesar de tantos momentos ruins, sempre há um novo despertar, um sol a se levantar, um dia a indicar àquela mãe que seus filhos são mais preciosos que todos os tormentos que nela se abateram.

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