Falta de medicamentos atinge rede pública e farmácias

Mãe relatou dificuldade em comprar dipirona e antibiótico para seu filho na cidade. Foto: Reportagem

Há alguns meses, é possível notar uma dificuldade muito grande de se encontrar remédios, principalmente os infantis, em farmácias em todo país. Na última semana, uma mãe procurou a Gazeta de Vargem Grande para relatar que tem sofrido para encontrar remédios para seu filho, de apenas 2 anos e meio.
Conforme contou, há duas semanas, o garotinho precisou tomar um antibiótico e não tinha o receitado pelo médico em nenhuma farmácia da cidade. O farmacêutico de um dos locais informou a ela que esse e outros remédios estavam em falta. Em outra ocasião, a mãe teve que passar por quatro farmácias diferentes até encontrar Novalgina em xarope para seu filho.
O problema não tem ocorrido apenas em Vargem Grande do Sul, uma vez que medicamentos como dipirona injetável, amoxicilina ou diazepam e até mesmo soro fisiológico estão em falta na rede pública e privada do país.
O problema, que causa preocupação à população, foi debatido por conselheiros e conselheiras nacionais de saúde, durante a 330ª Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que ocorreu no final de maio, em Brasília. Desde então, farmácias, hospitais e secretários municipais de Saúde reforçaram o alerta para a escassez de diversos produtos em todo o Brasil.
Recentemente, o Conselho Federal de Farmácias listou mais de 40 medicamentos em falta, entre eles, há dipironas, paracetamol bebê e amoxicilina com clavulanato. Todos usados com o aumento de doenças respiratórias.
Municípios, hospitais e farmácias apontam que as principais causas dessa escassez são externas: a alta do dólar, a instabilidade pela guerra na Ucrânia e o abre e fecha por causa da Covid na China, principal fornecedora de matéria-prima para medicamentos e embalagens.
O Ministério da Saúde publicou uma resolução que libera critérios de estabelecimento ou de ajuste de preços em medicamentos com risco de desabastecimento no mercado, e fez a inserção de medicamentos na lista de produtos com redução do imposto de importação sobre insumos.

Farmácias: produtos em falta afetam mais as crianças

Serginho da Farmácia relata busca intensa em distribuidoras. Foto: Gazeta

Um levantamento do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP) realizado em junho apontou que 98,52% dos farmacêuticos que responderam ao questionário sofrem com o desabastecimento de medicamentos, destes a maioria atua em estabelecimentos do setor privado. Já 10,24% são do setor público (administração direta) e o restante se divide em setor público (parceria privada e terceirizações) e estabelecimentos filantrópicos, beneficentes, mistos e autarquias.
O levantamento, realizado por meio de questionário contendo 20 perguntas disponibilizado no portal e nas redes sociais do CRF-SP, de 19 de maio a 30 de maio de 2022, obteve 1.152 respostas válidas. Dessas, 93,49% dos participantes relataram sofrer com a falta de antimicrobianos (entre os mais citados amoxicilina e azitromicina); 76,56% com a falta de medicamentos mucolíticos (entre os mais citados acetilcisteína e ambroxol); 68,66% com a falta de medicamentos anti-histamínicos (entre os mais citados dexclorfeniramina e loratadina); 60,59% com a falta de medicamentos analgésicos (entre os mais citados Dipirona, ibuprofeno e paracetamol) e 37,15% relataram a falta de outras classes.
Segundo o presidente do CRF-SP, Marcelo Polacow, as crianças são as que mais têm sofrido com o desabastecimento. “Os relatos mostraram que os medicamentos em falta são principalmente em suas formulações líquidas, o que prejudica em especial, a população pediátrica, já que a maioria dos medicamentos para esse público é na forma líquida por serem mais fáceis de administrar”, disse.

O dia a dia
A Gazeta procurou algumas farmácias para saber como está a procura pelos medicamentos e se a dificuldade de encontrar remédios tem crescido para os farmacêuticos vargengrandenses.
Antônio Sérgio da Silva, o Serginho da Farmácia, proprietário da Drogaria Santa Rita e da Santa Luzia, comentou que está preocupado com a situação atual. “Estão faltando muitos remédios, principalmente antibióticos e xaropes. Está faltando matéria prima e embalagem e, infelizmente, a previsão é que a escassez continue até o final do ano”, comentou.
Questionado sobre o que tem feito na farmácia para amenizar a situação, Serginho contou que a busca é incessante. “Nós vamos procurando em todas as distribuidoras para ver se encontramos. Mas, quando achamos, é sempre em torno de três unidades”, lamentou.
Marina Inácio Bertoloto Gonçalves, farmacêutica da Farmácia Santa Cecília, explicou que na Farmácia Santa Cecília também estão enfrentando muita dificuldade em encontrar vários medicamentos, principalmente antigripais, pastilhas, xaropes e antibióticos.
“E quando encontra em alguma firma tem que ser no pagamento à vista e muitas vezes quantidade limitada de compra, por exemplo tal produto pode comprar seis unidades apenas no pedido. As condições de negociação estão cada vez mais difíceis, isso quando acha algum medicamento”, comentou.
Para tentar amenizar um pouco a situação, a busca é diária. “Estamos todos os dias procurando os itens que estão em falta e trabalhando da melhor forma com o que estamos achando. Por sorte, existem muitos laboratórios de genéricos e isso ajuda muito para suprir o que não tem”, completou.

Não há previsão de melhora, comentou diretora de Saúde

Situação preocupa e não há previsão para melhora. Foto: Arquivo Gazeta

A diretora municipal de Saúde, Maria Helena Zan, comentou à Gazeta de Vargem Grande que a situação da falta de medicamentos é extremamente preocupante e segundo informou a própria Diretoria Regional de Saúde de São João da Boa Vista (DRS-14), do qual Vargem Grande do Sul faz parte, não há previsão de melhoras.
Maria Helena, que também atua no Hospital de Caridade, comentou que tanto na rede municipal de Saúde, quanto na rede hospitalar, há uma dificuldade muito grande de se adquirir uma série de medicamentos e até produtos como alguns tipos de soros.
A dirigente explicou que tanto a prefeitura quanto o hospital fazem as compras dos medicamentos e as empresas não entregam, alegando falta de matéria-prima para a fabricação dos produtos, de embalagens, itens de toda a cadeia produtiva. “Não estão chegando os medicamentos. Cada dia é uma situação diferente, um produto diferente, mas é algo generalizado tanto na rede pública quanto na particular. Infelizmente está em falta e com grandes dificuldades de se comprar todos os tipos de medicamentos”, observou.
O problema não se restringe a Vargem e região, como lembrou a diretora, é algo nacional e tem relação com a pandemia, quando a produção de muitos itens foi interrompida e a de alguns medicamentos foi direcionada para outros produtos e agora há ainda o impacto da guerra na Ucrânia, que também tem afetado o mercado mundial, na questão de comercialização de matérias primas para medicamentos e outros itens.
“Pela prefeitura, temos tudo licitado, tudo comprado, pelo Hospital temos todas as compras, mas não chega”, lamentou. Ela comentou à Gazeta que buscou informações junto à DRS sobre perspectivas de melhora nesse cenário e a resposta foi desanimadora. “A própria DRS não tem previsão. Estamos trabalhando no escuro. É muito preocupante”, comentou.

Situação se agravando
Na sessão da Câmara do dia 17 de maio, a diretora do Maria Helena Zan, já tinha comentado sobre o problema que já assombrava os brasileiros e segue até os dias atuais. Questionada sobre a demanda e recebimento de medicamentos de alto custo no Centro de Saúde pelo vereador Serginho, Maria Helena comentou que está atrasando e que os maiores problemas são, segundo a DRS, a falta de matéria prima e fabricação em larga escala.
“Tanto que mudou a data de entrega dos medicamentos de alto custo, e não porque quisemos, mas porque a DRS mudou a data de fazer a busca e os pacientes às vezes não entendem, mas são orientados e mesmo assim às vezes falta. Por exemplo: tem remédio que 150 pessoas pegam e vem apenas 90”, contou.
Na ocasião, o vereador disse que remédios como antibióticos, xaropes, paracetamol e ibuprofeno já estavam faltando. Maria Helena pontuou que a farmácia compra 100 frascos e a prefeitura compra 30 mil e não entrega, entrando em diversos problemas burocráticos.
Ela contou que, certo dia, houve uma situação de umas ampolas no Hospital. “Fazemos anestesia no paciente para cirurgia e tem paciente que acorda rapidamente, tem quem demora e tem quem precisa de ajuda de um outro medicamento para tirar o efeito do anestésico pra acordar. A ampola custava R$ 2,40 cada e sumiu. Acabou. Não existe mais, ficamos desesperados. Compramos com outro nome o mesmo medicamento por R$ 245,00 cada ampola para continuar fazendo cirurgia no Hospital”, relatou.
Durante a sessão, o vereador pontuou que o médico havia passado a escrever o nome de quatro antibióticos diferentes na mesma receita, pois se o paciente achar um já serve. A diretora comentou que isso está deixando ela preocupada, pois faltando antibiótico os pacientes vão precisar, muitas vezes não vão tomar o certo e isso vai ganhar resistência à doença, virando uma bola de neve.

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