Para professora da rede municipal, ronda externa nas escolas deve ser intensificada

Ao jornal, a professora Lucila expôs sua opinião sobre o tema. Foto: Arquivo Pessoal

À Gazeta de Vargem Grande, a professora da rede municipal de ensino Lucila Ruiz Garcia, professora do ensino fundamental I das escolas Antônio Coury e Henrique de Brito falou sobre os ataques a escolas e creches.
“É muito difícil como ser humano e como profissional de educação não ver com muita tristeza esses ataques que estão acontecendo contra as escolas, mas é isso é o vômito de uma sociedade que está doente e apenas ela está passando mal, colocando aquilo que ela está doente para fora. Porque essas coisas não começam com a facada ou com o ataque da machadinha, elas começam muito antes. Ela teve um início que não foi bem resolvido, não foi dada a devida importância para certos acontecimentos, muito provavelmente que devem ter sido alertados para essas famílias desses jovens”, disse.


A professora comentou que a questão do detector de metais e treinamento de professores para defesa pessoal é uma questão que foge do ambiente escolar. “Ambiente escolar não tem nada a ver com ambiente que tem que ser extremamente vigiado e com detector de metais com policial armado, a escola é um lugar de acolhimento. Nós cuidamos de preparar as crianças, principalmente nós que trabalhamos a primeira infância e com a formação dessas crianças que estão sendo apresentadas para a sociedade. E não é com esse tratamento parecido com o de um sistema prisional, barrando a comunidade de se aproximar da escola, que nós vamos enfrentar o problema da violência”, disse.


“É uma medida que vai totalmente contra a ciência da educação, pois nós temos inúmeras pesquisas que relatam isso, que quanto mais hostil e quanto mais você trata com violência, ou quanto mais você afasta a comunidade, mais violento é o tratamento que você recebe. Precisamos estar atentos a todas essas informações antes de fazer certas propostas e colocações”, completou.


Lucila pontuou que a maioria dos professores não tem nem condicionamento físico para fazer um treinamento desse e que não são da segurança pública e sim da educação pública ou da educação privada. “Nós trabalhamos com o cuidar de gente e não com o nos proteger de ataques. Então é uma inversão de papéis muito grande. Nós não queremos nem nos defender, porque nós temos o direito de trabalharmos em um lugar seguro, assim como os nossos alunos também. Um lugar seguro para uma escola é um local que se relacione bem no primeiro momento com a sua comunidade, que é o que vem se perdendo ao longo dos anos. Quando imaginamos uma escola dos sonhos, é uma escola sem muros, totalmente integrada com a comunidade”, falou.


“É sim da nossa responsabilidade colocar isso pra funcionar de acordo com o que tem que ser. E aí as pessoas falam que a família que não sabe mais qual é o seu papel, que é a escola e o estado que tem que fazer essa função, e nós somos toda uma rede protetora que temos que trabalhar em conjunto, e essa rede não está funcionando. Se eu sei que a família não está cumprindo de acordo o seu papel, eu vou ficar até quando criticando a família? Eu tenho que estender as mãos pra família e colocar a família dentro da escola, para ajudá-la a ser uma família melhor. Porque o fato de eu falar que a família não faz o papel e não ensinar a família como ela poderia fazer o papel dela melhor, eu também não estou cumprindo a minha função de educação”, completou.

Para Lucila, o professor tem o papel de transformar uma sociedade, que é cuidar da semente que recebem, para que ela cresça e se torne uma árvore saudável. “Nós não lidamos com podas de árvore, que é o que estão querendo fazer quando falam para colocar detectores de metais e treinar professores para saberem se defender. Isso é ensinar a gente a podar e nós somos jardineiros que cultivam sementinhas, estão invertendo o papel da educação e do educador, escolas não são gaiolas, professor não prende passarinho, professor ensina e incentiva o voo dos seus alunos. Esse é o nosso papel”, pontuou.


Ela comentou que um aumento de ronda é o adequado no momento e que, para conforto das famílias, é preciso instalar um monitoramento de câmeras que realmente funcione. “Penso que não seria o mais adequado colocar esses profissionais dentro da escola. Até porque eles teriam que passar primeiramente por um treinamento pra saber como lidar com as escolas, com os estudantes, que abordagem fariam com os nossos alunos. Ao meu ver, essa abordagem tem que ser feita com ronda do lado externo da escola”, ressaltou.


A professora ressaltou que, quando uma criança apresenta algum problema que o professor vê que foge aos padrões do comportamento tido como dentro dos padrões da naturalidade da criança, que tem uma agressividade maior ou que tem um comportamento atípico mesmo, essas crianças já são encaminhadas para profissionais da saúde para que tenham atendimentos especializados e são feitos relatórios pela escola. “Porém, o atendimento é muito falho porque demora muito, não tem vaga pra todos e às vezes tem vaga, mas a família não dá importância e não leva. E quando a família não leva também, não tem nenhuma consequência para eles, mesmo que sejam informados os órgãos de proteção à criança. A rede de proteção à criança não funciona de uma maneira integrada como uma rede mesmo onde tudo se comunica como deveria funcionar”, disse.
Lucila pontuou que o professor faz o papel enquanto escola, que o trabalho do Conselho Tutelar, do CREAS e do CRAS são feitos, mas que os trabalhos não se interligam para que seja um trabalho eficaz de verdade. Além disso, a professora relatou que nos últimos anos foram desestruturados trabalhos que auxiliam no processo de combate à violência, como o projeto Família na Escola.
“O projeto tinha questões de monitoramento inteligente de jogos cibernéticos, nessa questão de jogos muito violentos que tinham um espaço de inteligência do estado que fazia essa vigilância constante e foi desatualizado. Nós tínhamos os professores mediadores nas redes estaduais, que foi também extinto, e funcionava muito bem, porque fazia essa mediação entre os alunos que apresentavam algum problema, a família e a escola. Faltam psicólogos nas escolas, a solução tem que vir com a prevenção. E a valorização dos profissionais da educação, a formação adequada dos profissionais da educação com temas que sejam pertinentes àquilo que está acontecendo, e não com informações que sejam apenas para cumprir tabelas, que é o que acontece”, comentou.

“Ao invés de colocar detector de metal nas escolas, poderiam se construir laboratórios de ciências, onde as crianças pudessem fazer análises de biologia, de química, coisas que atraíssem o interesse de verdade das crianças. Colocar bibliotecas bem estruturadas nas escolas. Hoje nós temos uma escola funcionando com 60 alunos por sala, então estamos em uma situação em que um treinamento de defesa pessoal é a última coisa que importa nesse momento, temos coisas muito mais importantes”, completou.
A professora disse que receio sempre terá, mas que se sente bem segura nos locais onde trabalha, pois o acesso é bem controlado pelos colaboradores e pela direção, onde ninguém entra sem ser identificado. “Os nossos alunos são crianças bastante respeitosas. Receio sempre temos, pois pode vir alguém de fora, mas acredito que seja muito pouco provável que uma coisa dessa aconteça no nosso município diante da estrutura que nossas escolas tem, o comprometimento dos colaboradores da educação é muito grande. E mais uma vez a gente consegue ver a importância da educação. O professor precisa ser encarado como um profissional extremamente essencial para a sociedade. Enquanto isso não acontece, muito provavelmente esse tipo de problema também não vai diminuir, porque não somos respeitados, então essas coisas provavelmente não vão deixar de existir, porque não se valoriza aquilo que deve ser valorizado”, finalizou.

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