Carolina de Abreu – Psicóloga e Psicanalista
É chegado o final de dezembro, o final de mais um ano. Enquanto que para algumas pessoas a vida desacelera, para outras, a pressa e a urgência com que vivemos o ano todo, se tornam ainda mais manifesta. Cria-se uma emergência em resolver antes que o ano termine, todas as pendências que ficaram pelo caminho ao longo do ano. Os consultórios médicos ficam lotados, a reforma na casa que precisa acabar até o final do ano, terminar o livro que começou, tudo antes que o ano termine.
Uma pequena sensação de “fim do mundo” nos invade, aliado em alguns casos, a sintomas como ansiedade, angustia e depressão. Alguns psicanalistas nomearam essa fase do ano de “Dezembrite” devido a uma mistura de sentimentos e sintomas que reaparecem e que acometem algumas pessoas de forma intensa a cada final de ano.
O medo de um ano novinho, misturado a alegria de ter chegado a mais um final é quase sempre acompanhado de uma lembrança e outra de anos passados, junto a saudade de pessoas queridas que já se foram e tornam as festas do final de ano, com menos brilho, para muitas pessoas.
Associado a esses sentimentos para uma grande parcela das pessoas, é tempo de se fazer um balanço de como foi o ano, uma espécie de “retrospectiva moral”. Lembranças de planos, e objetivos que foram e principalmente, os que não foram realizados ao longo do ano ganham peso.
A expectativa da realização de novos planos, somados a frustrações de planos não realizados parece ser uma das principais razões da manifestação de sentimentos como angustia e ansiedade.
Mas por que afinal deixamos tantos planos pelo caminho ao longo do ano?
A psicanálise nos mostra, que se formos analisar os motivos pelo qual não concretizamos planos que queríamos muito, chegaremos sempre a uma resposta intima e muito particular.
Quando falamos sobre o querer, é sempre sobre algo do senso comum, que julgamos importante e necessário para a nossa vida. Nós sempre escolhemos o que achamos que queremos e mesmo assim, estamos sempre insatisfeitos. Isso acontece porque o nosso querer sempre muda. Achamos que queremos algo e quando o temos, já queremos outra coisa. Nosso querer se modifica ao longo do ano, da vida.
Podemos aceitar essa mudança sobre o nosso querer, ou ficarmos nos ocupando de nos lamentar pelo que não se fez.
Na maioria das vezes, colocamos metas inacessíveis, inalcançáveis que nos tornam sempre frustrados. Metas possíveis podem ser mais fáceis de serem atingidas, proporcionando mais satisfação com a própria vida.
Outro ponto importante com relação ao nosso querer, é nos perguntarmos quando queremos ter, ou realizar algo que nos comprometemos, “O que de fato desejo, através disso que quero muito? “Passarmos da afirmação “Eu quero um carro novo” para a questão, “Por que eu quero um carro novo?”. Cada um chegará a uma resposta bem pessoal. Essa resposta pode identificar o seu real desejo. O que está por trás do seu querer.
A exposições nas redes sociais gera uma tendência de que as pessoas observem o que as outras estão fazendo, de como estão vivendo, e acabam por querer pautar sua vida na do outro, como se vivessem por imitação, se distanciam do desejo real que o habita. Como agem em desconformidade com o seu desejo, não conseguem seguir com os mesmos planos dos outros. É preciso sermos responsáveis pela nossa singularidade.
Essa é mais uma razão pelo qual, muitos dos nossos planos para o novo ano, não são realizados. Por que não condizem de fato, com o desejo de cada um.
Um processo de análise pessoal, pode levar o sujeito a descobrir as tramas do seu desejo, e evitar iludir-se com os “quereres” do senso comum, que tamponam seu desejo.
Essa dissonância entre o nosso querer e o nosso desejo, é fonte de sintomas como angustia e frustrações na vida de muitas pessoas. Entender o que desejamos, pode fazer com que criemos objetivos mais próximos do nosso desejo e então tenhamos motivação para realizá-los.
Um outro fator que influencia nossos planos e nossa vida se refere a forma com que vivemos na contemporaneidade, o tempo on-line contribui de forma significativa para a fluidez dos nossos planos e para alguns dos sintomas já citados.
Vivemos o século da aceleração, tudo que fazemos, é com pressa, é urgente! Não podemos parar, estamos sempre atrasados, irritados, cansados. Somos bombardeados por estímulos, informações, que nos capturam e ditam a forma de viver e de nos relacionarmos com as outras pessoas.
A era digital enfraqueceu nossas relações, nossas vivências, nossa maneira de viver e ver o mundo. Não se tem tempo para digerir e sentir o efeito do que nos acontece, estamos cheios e ocos. As experiências não nos deixam marcas e temos sempre a sensação de não termos vivido.
Alguns psicanalistas identificam no final do ano um período de “crise existencial coletiva”, O espaço que o ano novo nos permite, pode parecer angustiante. É importante então, que nesse momento, acolhamos essa angustia, medo ou seja lá que sentimento surgir. Ouvir nossos medos e inquietações pode nos permitir entendermos a origem de tais sentimentos e nos articularmos para movê-los a favor da vida.
Por mais penoso que pareça o final do ano para algumas pessoas, há uma importância em cortar o tempo em fatias, (como já dizia Drummond). Fatiar o tempo em anos, pode nos permitir rearranjar nossa vida e nosso tempo. Pensarmos sobre o que vivemos, e de forma bem singular, sobre como e o que desejamos viver.
Jacques Lacan, (1901-1981), psicanalista francês em seu Seminário 15, diz que foi o homem quem determinou o ano, para que ele tenha um começo e um fim. Um ano novo é como a lua, um ciclo, que passa por suas fases, até que vire nova. O ano novo é uma reciclagem. O que determina o “antes e depois”. Ali, onde o ano termina, ele recomeça.













