Existe um profissional muito conhecido em Vargem Grande do Sul, que tem nome de santo e trabalha no ramo em que este que é um dos santos mais populares do mundo, é padroeiro. Estamos falando do mecânico eletricista de auto Cristóvam de Souza Lima, xará de São Cristóvão, o padroeiro dos caminhoneiros, dos taxistas e viajantes em geral.
Enquanto a história de São Cristóvão, cujo nome significa aquele que carrega o Cristo, nos conta que ele era filho de um rei pagão que o dedicou ao deus Apolo, se convertendo à fé cristã depois de servir a satanás, o nosso Cristóvam vargengrandense tem uma bonita história humana de trabalho e dignidade ligada na lida com os motores de arranque e alternadores elétricos.
Em comemoração ao Dia de São Cristóvão que acontece no dia 25 de julho, a reportagem da Gazeta de Vargem Grande entrevistou o eletricista de autos Cristóvam para o Guia do Motorista, não só pela coincidência do nome, mas também por ele ser uma referência entre os antigos mecânicos do município, uma área ligada aos caminhoneiros e motoristas, cujas matérias são abordadas no presente guia.

Cristóvam de Souza Lima, 69 anos, começou no ramo aos 12 anos de idade, trabalhando no auto elétrica de Jesus Simões Botelho, mais conhecido como Zizo Botelho, cuja oficina e loja se localizavam na esquina das ruas Cel. Lúcio e dr. Teófilo Ribeiro de Andrade, onde hoje funciona o Santo Pastel.

Começou como aprendiz, lavando peças, cuidando da limpeza da oficina e tendo como ‘professores’, os eletricistas de auto Dirceu Gambaroto e João Batista de Souza, o conhecido Joãozinho Eletricista, que veio a ser pai do Ronie Cândido de Souza, da Auto Elétrica e Mecânica Joia.
Conta Cristóvam que era uma oficina geral, trabalhando com todos os tipos de veículos e corria o início da década de 70. Lá trabalhou cerca de 4 anos. Depois, quando João e Dirceu saíram da oficina, Cristóvam os acompanhou e os dois mecânicos montaram uma oficina pequena, no bairro IV Centenário, esquina das ruas Cel. Lúcio com a Saldanha Marinho.

Mais uma mudança, com Dirceu Gambaroto indo trabalhar na oficina do sr. Orlando Avanzi, na rua Saldanha Marinho e Cristóvam o acompanhando e depois, no mesmo local, voltando a trabalhar com Joãozinho Mecânico que tinha voltado de São Paulo. Passou-se algum tempo, Dirceu já tinha deixado a oficina e depois Joãozinho, ficando Cristóvam sozinho, tomando a decisão de trabalhar por conta própria, sentindo-se maduro para o empreendimento com tudo que aprendera com os seus dois ‘professores’.
Ainda não tinha 18 anos e contou com a ajuda do sr. Orlando que lhe emprestava as ferramentas, até ele ir comprando aos poucos as suas. Com pouco mais de 20 anos, já tendo formado uma boa clientela e amigos, tomou a decisão de construir a sua própria oficina. Era por volta de 1975, quando ele adquiriu um terreno atrás do Cemitério da Saudade, na Vila Santana, na Rua Padre Donizete.
Lá, nos fundos, construiu um pequeno barracão medindo 10×5 e começou a trabalhar duro. Já tinha casado com a esposa Esdra de Souza Lima e foi trabalhando sozinho, com a esposa ajudando a manter tudo limpo, iniciando na lida por volta das 5h da manhã, almoçando rapidamente e só parando bem à tardezinha.
Já tinha conseguido formar uma boa clientela, principalmente com os donos de caminhões, tratores e máquinas agrícolas, onde se especializou na parte elétrica. “Eram principalmente caminhões de puxar barro, das cerâmicas da cidade, aprendi tudo na raça, além dos meus dois ‘professores’ Dirceu e Joãozinho, foi na prática que me tornei mecânico de auto elétrica”, afirmou.

Cristóvam se aposentou ainda novo, aos 55 anos, mas não parou de trabalhar. O ritmo ainda continua o mesmo, começando cedo, por volta das 5h e terminando às 17h, com um almoço rápido. “Sempre foi assim, até hoje não tenho hora de almoço”, comentou.
Do casamento, nasceram os dois filhos, Cristóvam de Souza Lima Filho e Cristina Elisa de Souza Lima Dias. Eles trabalham na oficina, o filho como mecânico eletricista e Cristiane na parte administrativa. O trabalho em família envolve também o genro Fernando Alaor Dias, que é mecânico eletricista e ajuda no dia a dia. “São eles que tocam agora. Não pego mais os serviços. Venho cedo, ainda com as portas fechadas, fico consertando os motores elétricos e os alternadores”, disse.
A relação do mecânico eletricista com o santo Cristóvão

Cristóvam é católico, frequenta as missas aos domingos, na Igreja de São Joaquim. Não é devoto de São Cristóvão, mas o respeita, principalmente por levar o seu nome. Acha importante os caminhoneiros terem o santo como padroeiro.
Quanto ao seu nome, ele acha diferente se chamar Cristóvam. “É um nome muito usado no Nordeste. Meus pais são de Petrolina, cidade conhecida de Pernambuco e, toda família nordestina tem um Cristóvão no meio”, lembrou.

Seu pai foi muito conhecido na cidade pelo trabalho que executou calçando inúmeras ruas da antiga Vargem Grande do Sul com paralelepípedos. Manoel de Souza Lima, mais conhecido como Mané Baiano, foi importante para o desenvolvimento da cidade, num tempo em que quase não existia asfalto, ele e sua equipe fizeram o calçamento de pedra em grande parte da zona urbana de Vargem.
Guarda boas recordações do seu pai e também de sua mãe, dona Elisa Ramiro de Lima. Com eles aprendeu o valor do trabalho e da honestidade. “Foram meus baluartes. Fizeram de tudo para estudar os filhos. Só eu não quis, fiz até o 4º ano e depois segui a carreira de mecânico eletricista de auto e nela estou até hoje. Gostava do meu trabalho e a ela me dediquei a vida toda”, afirmou.
A opção para ele foi muito boa. Construiu sua casa e a oficina. Também uma casa para cada filho e ajudou na compra dos seus veículos. Hoje, todos vivem do trabalho realizado na Auto Elétrica e Peça Souza Lima, mais conhecida como “Oficina do Cristóvam”. Nela, além dos familiares, também trabalha uma funcionária no escritório, um aprendiz e um técnico em manutenção.
Por todas estas conquistas, Cristóvam não pensa em parar. Mesmo se dedicando mais ao conserto dos motores de arranque e alternadores, ele continua sendo uma referência para todos dentro da oficina. Além de sua capacidade, Cristóvam deve contar também com a ajuda do outro Cristóvão, o santo padroeiro dos caminhoneiros e, porque não, dos que trabalham para os caminhoneiros.













