A falta de perspectiva de melhora do preço da saca de batata no curto prazo continua preocupando os produtores
Conhecida como a “terra da batata”, Vargem Grande do Sul enfrenta um momento de forte crise na bataticultura. Mesmo com uma safra considerada boa em volume, os produtores estão no vermelho. O motivo? O preço da saca não acompanha os custos crescentes de produção e beneficiamento. Os últimos anos foram de safras boas, com os produtores tendo um bom lucro, mas este ano a situação inverteu e já há produtor falando em prejuízos.
Último boletim Cepea que o jornal teve acesso junto ao site HFBrasil.org.br, informa que as cotações da batata seguem enfraquecidas, refletindo o aumento na oferta conforme a safra de inverno ganha ritmo – a expectativa de pico de oferta se mantém entre agosto e setembro.
O site cita também que os preços já estão em patamares baixos, não sendo suficientes para cobrir os custos de produção. Para os colaboradores do Hortfruti/Cepea, o que pode atenuar o cenário de excesso de oferta é o aumento da demanda argentina pelos tubérculos brasileiros.
“O país vizinho enfrentou geadas severas entre o mês passado e este, com significativa perda na produção. Para as próximas semanas, a disponibilidade doméstica deve seguir elevada – ressalta-se que as praças sulistas então finalizando a safra das secas, reduzindo a oferta por parte dessas”, cita o site Cepea.
O preço da saca de batata continua preocupando os produtores
Rodrigo Canela, 40 anos, é agricultor da segunda geração de uma família que cultiva batata há mais de 80 anos na região. Ele administra uma propriedade de 200 hectares, onde também planta milho, soja, trigo e sorgo. Com vasta experiência no campo, Canela resume o cenário atual como um dos piores já enfrentados.
“A batata está sendo vendida entre R$ 25 e R$ 30 a saca de 25 kg, mas os custos explodiram. Hoje, só o beneficiamento custa em média R$ 12 por saca, sem contar os demais custos de produção e colheita. No fim das contas, sobra quase nada às vezes, nem isso”, explica o produtor.
Ele lembra que há cerca de dez anos, o custo de beneficiamento, que inclui lavagem, seleção e ensacamento, girava em torno de R$ 4,00 por saca. “O brasileiro é o único consumidor no mundo que exige batata lavada. Isso encarece demais o processo. Lá fora, o pessoal compra a batata com terra, do jeito que sai da roça.”
Outro fator que agrava a situação é o excesso de oferta. A boa remuneração do ano passado incentivou o aumento da área plantada em diversas regiões do país. Com clima favorável e alta produtividade, a batata chegou em grande quantidade ao mercado, derrubando os preços.
“Temos pelo menos sete regiões produtoras ofertando batata ao mesmo tempo. Isso desequilibra a lei da oferta e procura. E batata tem um consumo diário limitado, não adianta produzir mais se o mercado não absorve.”
Canela também ressalta que os preços atuais são, proporcionalmente, piores do que os praticados em anos difíceis como 2003 e 2014. “Naquela época, a saca de 50 kg chegou a ser vendida por R$ 8,00, mas os custos eram muito menores. Hoje, vendendo uma saca de 25 kg por R$ 25, o prejuízo é maior por causa do aumento dos insumos, da mão de obra e da mecanização.”
A mecanização, aliás, foi uma tentativa de reduzir custos. “Investi nisso há mais de 10 anos justamente para enfrentar anos como esse. Mas com o preço que estamos recebendo agora, nem isso resolve.”
Além dos preços baixos e do custo elevado, os produtores ainda enfrentaram problemas de qualidade. “A produção até foi boa em quantidade, mas a batata perdeu em qualidade de casca. Isso afeta diretamente a venda, porque aqui no Brasil se compra batata com os olhos.”
Diante de todos esses fatores de alta oferta, custos elevados e exigência estética do consumidor a previsão dos produtores da região não é nada animadora. “Acredito que cerca de 80% dos produtores vão fechar a safra no prejuízo. O cenário é difícil, e não há expectativa de melhora no curto prazo.”
Sem perspectiva de alta, produtores acumulam prejuízos em plena safra
Em plena safra de inverno, os produtores de batata da região de Vargem Grande do Sul convivem com um cenário de desânimo e prejuízo. Com o preço da saca de 50 quilos girando em torno de R$ 50,00 na roça, a conta não fecha para quem depende da lavoura. O agricultor Ricardo Canella, 49 anos, é um dos tantos que amargam os baixos valores praticados no mercado.
“A gente precisava vender a saca por pelo menos R$ 80,00 para cobrir os custos. Com os preços atuais, o prejuízo é enorme”, relata Canella, que cultiva 200 hectares de batata de consumo e 50 hectares para a indústria. Ele também planta cebola, beterraba, cenoura, milho-grão, milho-verde, soja e trigo, numa tentativa de diversificar a produção e mitigar perdas.
Segundo o produtor, houve uma leve melhora nos últimos dias devido à chuva no fim de semana, que interrompeu temporariamente a colheita em algumas áreas e segurou a oferta. Ainda assim, o alívio foi passageiro. “Agosto e setembro são meses de pico da colheita. A oferta aumenta muito, então não há expectativa de alta nos preços”, afirma.
A história de Ricardo na agricultura começou cedo, em 1992, ao lado do pai e do tio, Walter, com quem a família manteve sociedade por décadas. Hoje, após o falecimento dos dois, ele administra a propriedade ao lado do irmão, Sérgio Donizete Canella.
Nos últimos anos, a falta de mão de obra tem sido um desafio adicional. “A gente investiu em mecanização, especialmente na colheita, porque está cada vez mais difícil encontrar trabalhadores. Mas algumas áreas ainda precisam de mão de obra manual, especialmente na manipulação das sementes”, explica.
Diante dos custos crescentes e da dificuldade para repassar os preços, o setor segue pressionado. “A gente trabalha duro, investe, mas sem valorização no mercado, fica difícil continuar. É uma realidade que precisa ser vista com mais atenção”, conclui Ricardo.












