A vida de Libânio Coracini é um exemplo e serve de exemplo para todos nós. Empresário do ramo cerâmico, aos 93 anos de idade, com muita lucidez, ele relata a reportagem da Gazeta de Vargem Grande sobre um dos feitos que mais marcou sua vida de empreendedor. O plantio de 2.520 árvores nas margens do Rio Verde, na antiga propriedade de sua família, onde hoje está localizada a Cerâmica São Paulo, de seu filho Libânio Coracini Filho, localizada na estrada do bosque e onde hoje a prefeitura constrói o Lago Águas do Rio Verde.
Em entrevista à Gazeta de Vargem Grande, Libânio Coracini falou um pouco de sua jornada na plantação de árvores.
Morador de Vargem Grande do Sul, nascido e criado no bairro Santa Maria, ele é filho de Rosa Canal Coracini e Antônio Coracini, sendo um dos caçulas de uma família com oito irmãos.
Com voz serena e memória afiada, seu Libânio relembra com carinho seus primeiros passos às margens do Rio Verde, onde nasceu. “Tinha três ou quatro anos quando minha irmã Anésia me levou pela mão para buscar areia no rio. Enquanto ela enchia a vasilha, eu brincava com os pezinhos na água. Fiquei encantado”, conta.
A areia servia para arear as panelas de ferro, um costume antigo que ficou guardado na lembrança e no seu coração.
Mas foi já idoso, com 73 anos, que ele começou a escrever uma das páginas mais importantes da sua história e com importantes reflexos no meio ambiente da cidade: o plantio de uma pequena floresta de árvores de mata ciliar junto ao Rio Verde.
Do barro à floresta
A antiga cerâmica da família, situada no bairro Santa Maria, utilizava argila retirada das proximidades do Rio Verde e no processo de queima, muitas árvores foram derrubadas para alimentar os fornos.
Com a chegada de leis ambientais exigindo o reflorestamento e a preservação da mata ciliar, nasceu a missão: replantar a natureza ao redor do rio que o viu nascer e crescer.
“Um engenheiro veio, mediu o terreno e calculou que caberiam cerca de 2.500 mudas. Eu decidi que iria plantar tudo sozinho. Cavava, plantava, regava, colocava o tutor. Uma a uma”, conta orgulhoso.
Tutor, ele explica com a experiência adquirida: “É aquela estaca que ajuda a árvore a crescer reta. É como um tutor de verdade, como para uma criança sem pai e mãe. Serve para orientar, dar direção”.
Começou por volta de 2005 e só terminou em 2011. Foram seis anos de trabalho diário, superando obstáculos como chuvas, doenças na família e terrenos difíceis. “Teve lugar que a enchente trouxe tanta areia que precisei buscar terra boa de longe com balde, para que a muda pegasse direito”, recorda. E pegou.
Hoje, a “florestinha” – como ele carinhosamente chama, tornou-se um verdadeiro santuário de vida. “Tem tudo que você encontra na Mata Atlântica: ipês amarelo, branco e roxo, jequitibá rosa e branco, mogno, pau-d’alho, aroeira, moreira, copaúva, pau-marfim, jacarandá…”, enumera.
Um pedaço da plantação, próximo às torres de energia, é o seu orgulho maior. “Ali é o meu cartão de visita. Uma beleza de árvores. Hoje, os passarinhos fazem ninho, tem coelho, paca, saguis, lagartos… virou casa de muitos bichos”, diz emocionado.
As sementes do mundo
Seu Libânio não parou por aí. Plantou árvores em frente à sua casa, forneceu mudas de tamareira a amigos, conhecidos e para proprietários rurais da região. “Fui para Israel, comi tâmaras, guardei as sementes no bolso. Cheguei aqui, plantei. Hoje, tem tâmara nascendo em vários lugares da cidade e do campo”, diz. Só no sítio conhecido como “Serrinha”, há pelo menos cinco tamareiras vindas das suas mudas.
Quando alguém dizia “quem planta, não colhe”, ele provava o contrário. “Plantei uma tamareira em janeiro de 2013. Em novembro de 2019, eu estava comendo as tâmaras dela. Quer dizer, quem planta colhe, sim”, afirma com um sorriso.
Além disso, ele ainda participou do plantio de eucaliptos em outra área próxima à estrada de Casa Branca, como parte de um reflorestamento obrigatório: “Foram cerca de 150 mil pés. Esses, com mão de obra contratada.”
Um legado verde
Hoje, aos 93 anos sr. Libânio já não planta como antes, mas segue firme em sua missão de inspirar. “Não tenho mais onde plantar. Mas se os jovens puderem, onde estiverem, no quintal, no sítio, onde for… que plantem árvores. Da árvore vem o oxigênio que a gente respira. É uma profissão, uma missão, um bem para o mundo”, aconselha.
Ele não deixa herança em ouro ou prata. Deixa em raízes e folhas. “Meu legado é a mata. Está lá, crescendo, produzindo ar puro para Vargem Grande do Sul. Eu fiz a minha parte como cidadão”, afirma, com humildade e uma ponta de orgulho.
Ao final da entrevista, sr. Libânio faz um convite e deixa um recado aos jovens. “Passa lá pela estrada velha da Grama, olha para o lado esquerdo, ali onde o Rio Verde faz a curva. Aquela mata é minha. Aquela é a minha florestinha”.
“E para os jovens eu digo: Não podendo plantar, isto é, não sendo possível plantar, ajude a conservar as que estão plantadas. Isso é muito importante.”












