Curta “Replikka” ganha dois prêmios em Brasília

Grupo recebeu o prêmio no último sábado

Obra que fala sobre a luta de povos indígenas para a recuperação de uma caverna com inscrições sagradas conta com a vargengrandense Fernanda Ligabue na equipe

Fernanda e a equipe na aldeia Ulupuwene

O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, uma das mostras competitivas mais tradicionais do país, com 60 anos de história completados neste ano, realizou sua 58ª edição no último sábado, dia 20. Entre as obras premiadas com os troféus Candango está o curta “Replikka”, curta metragem que tem a vargengrandense Fernanda Ligabue como codiretora de fotografia. Replikka – fala sobre a construção de uma réplica de uma gruta com inscrições sagradas do povo Wauja, uma vez que a caverna original foi vandalizada e destruída – e ganhou os troféus Candango de Melhor Edição de Som e Melhor Direção na categoria Curta Metragem.

A história
Para os 16 povos indígenas do Xingu que vivem na Amazônia legal brasileira, a antiga caverna de Kamukuwaká é um local histórico sagrado. É considerado por eles “o grande livro do conhecimento”. Há séculos, as gravuras nas paredes da caverna são a base da cosmologia, costumes e da história ancestral indígena e inspiram rituais tradicionais no Xingu, danças, canções, pinturas corporais e decoração de cerâmica.
O sítio arqueológico foi tombado como patrimônio cultural em 2010 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e fica dentro de uma fazenda de soja no Mato Grosso. Desde a década de 1960 os Wauja reivindicam que a gruta sagrada e seu entorno, incluindo a nascente do rio Batovi sejam anexados ao território Indígena do Xingu.
Em 2018, durante uma expedição, o povo Wauja descobriu que os antigos petroglifos da gruta, que havia sido catalogada pelo Iphan, haviam sido destruídos: restaram apenas marcas de cinzel, uma superfície lascada e fragmentos espalhados pelo chão. O avanço da agricultura industrial têm expandido as plantações de soja e pastagens nas fronteiras da Terra Indígena demarcada, causando graves impactos culturais e climáticos. O vandalismo, apontam, foi provavelmente um ataque cultural calculado para apagamento deliberado da memória Indígena.

A recuperação
Um projeto foi colocado em andamento para que o conhecimento escrito em gravuras na gruta Kamukuwaká não fosse perdido para sempre. A equipe da Factum Foundation empregou tecnologia de alta resolução (fotogrametria e digitalização LiDAR) para registrar a caverna. Em seguida, utilizando tecnologias de impressão 3D de última geração e com referência à documentações fotográficas anterior, bem como à memória coletiva dos Wauja, foi realizada uma restauração digital com precisão forense das gravuras, resultando em uma réplica em tamanho real, da entrada até a caverna com todos os petroglifos, medindo 8 metros de largura por 4 metros de altura.
Na aldeia Ulupuwene foi então construído um Centro Cultural e de Monitoramento Territorial para receber a réplica. Em outubro de 2024, foi realizado um grande ritual que marcou a inauguração da nova gruta no território Indígena com a presença de 300 convidados do Xingu entre parceiros do projeto, Iphan, Fundação Nacional do Índio (Finai) e imprensa.

O curta
A obra Replikka fala sobre a importância da gruta de Kamukuwaká e suas inscrições para os povos indígenas do Xingu. É uma obra sobre memória, identidade, perda e o renascimento dessa caverna sagrada no território do Alto Xingu. Ele foi dirigido por Piratá Waurá, comunicador indígena Waura, e Heloisa Passos e traz uma reflexão sobre a colaboração através do ritual, apresentado inteiramente na língua indígena local e feito com o apoio dos jovens membros da comunidade xinguense.
Em entrevista à Gazeta, Fernanda Ligabue falou que foi convidada pela diretora Heloisa Passos, “ela me chamou para para fazer a codireção de fotografia do documentário junto com Piratá, que é um importante comunicador indígena do povo Wauja”.
“Essa caverna sagrada foi totalmente depredada e destruída. Essas inscrições faziam parte da história dos povos indígenas de Xingu, não só dos Wauja, são dos 16 povos que vivem em Xingu. Então essa organização internacional se juntou com artistas e fizeram um projeto para recriar a réplica dentro do território indígena, para que os indígenas pudessem seguir usando ela como uma forma de um instrumento de educação das suas histórias e repassar sua cultura e ancestralidade para as novas gerações dentro da aldeia”, explicou.
Foi criada então uma equipe mista de indígenas e não indígenas para fazer o curta. Fer e outros profissionais foram à aldeia, deram uma oficina de audiovisual para os jovens comunicadores indígenas e o grupo foi registrando e criando o filme juntos. Depois da captação, Pirata foi para São Paulo para participar da edição e da finalização do filme. “Então, desde a criação do roteiro até a finalização, todos os processos foram feitos em colaboração e foram feitos juntos”, ressaltou Fer.
O curta estreou no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro nesse final de semana e ganhou dois Candangos. Fernanda falou que está muito feliz com a premiação. “Eu trabalho com a questão de socioambiental e de direitos indígenas há quase 15 anos. Foi a primeira vez que algum filme que eu participo é enviado para um festival, porque meus filmes são geralmente feitos para ONGs, para organizações nacionais e internacionais e eles não circulam muito por circuitos de festivais de cinema”, comentou. “Estou muito contente com esse reconhecimento do nosso trabalho. É um trabalho coletivo, conjunto. Então esse prêmio é de todo mundo que participou e colaborou para que ele se tornasse realidade”, disse.
“Acho que a premiação é importante para o reconhecimento do cinema produzido por indígenas, criado por indígenas, o cinema indígena está crescendo muito e sendo reconhecido”, ponderou. “Para o povo Wauja, produzir um documentário que vai para um festival e conta sobre ancestralidade, importância da cultura e da memória indígena e esse filme já ser tão bem divulgado e ganhar prêmios, dá um fôlego para a criação audiovisual indígena do Xingu, e também ajuda a continuar preservando mais ainda a cultura e a história desses povos”, finalizou Fernanda.

Fotos: Divulgação

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