Número de animais abandonados e perdidos cresce em Vargem

Evania dedica tempo e até recursos pessoais ao resgate de animais abandonados. Foto: Arquivo Pessoal

Em 2025, aumento de casos preocupa, mobiliza ativistas e reabre debate sobre legislação e conscientização

O abandono e a perda de animais domésticos têm se tornado um problema crescente em Vargem Grande do Sul, especialmente ao longo de 2025. A protetora dos animais Evania Coracini, que atua na linha de frente dos resgates e cuidados principalmente de cães e gatos, relatou à Gazeta de Vargem Grande um cenário alarmante que envolve não só o descaso da população local, mas também o abandono de animais por moradores de cidades vizinhas.
Evania aponta que a presença da clínica veterinária municipal tem contribuído para que pessoas de outros municípios venham até Vargem deixar animais doentes ou indesejados. “Eles acham que aqui, por ter clínica, podem abandonar”, afirma. Para tentar coibir esse tipo de prática, ela defende a instalação de câmeras de monitoramento nas entradas da cidade. “As pessoas procuram lugares sem câmeras para soltar. Eu mesma já flagrei abandono com imagens de câmera”, relata.
A protetora chama atenção também para o aumento significativo de casos envolvendo cães da raça pitbull. Segundo ela, muitos adotam o animal sem ter estrutura ou conhecimento para cuidar. “As pessoas pegam o pitbull, depois não dão conta da alimentação, do espaço, e soltam esses coitados na rua”, lamenta. Para Evania, o problema não está na raça, mas no tratamento. “O animal é reflexo do que fazem com ele. Se for maltratado, vai se tornar agressivo. Isso vale para qualquer raça.”
Desde janeiro deste ano, mesmo sem recursos suficientes, Evania afirma ter resgatado 42 animais em situação de risco. Muitos estavam atropelados, doentes ou idosos. Hoje, segundo ela, a AMA (Associação dos Amigos dos Animais), da qual é responsável, abriga cerca de 300 animais, contando com cães de porte grande em lares temporários. Um dos casos mais emblemáticos envolve uma porca de 18 anos resgatada de maus-tratos, que ainda vive sob seus cuidados.
“Animal não é brinquedo. Se a pessoa quer um que não late, que não dá trabalho, pega um de pelúcia”, diz. Evania reforça que o problema não é apenas de quem abandona, mas também de quem adota sem responsabilidade. “Pegam fêmeas, não castram, deixam procriar e depois abandonam os filhotes. As pessoas querem adotar só se for filhote pequeno, mas não assumem o compromisso até o fim da vida do animal.”
Outro problema apontado é o crescimento dos casos de animais perdidos. De acordo com a protetora, muitas vezes não se trata de abandono deliberado, mas de descuidos pontuais, ainda que com graves consequências. “O animal escapa e, se for de raça, muitas vezes é recolhido por outra pessoa que não devolve. Está cada vez mais difícil localizar os tutores, mesmo quando procuram desesperadamente.”
Para lidar com a situação, Evania defende que a cidade avance na criação de uma legislação municipal mais rígida contra maus-tratos e abandono. Sua proposta inclui a aplicação de multas que, quando não forem possíveis de pagar em dinheiro, sejam convertidas em serviços comunitários, especialmente em projetos de proteção animal. “A pessoa tem que sentir no bolso. Se é pobre, por que pegou o animal? Então que ajude de outra forma, mas tem que haver punição”, defende.
Além disso, ela enfatiza a importância da castração gratuita, política que, segundo ela, deve ser ampliada e reforçada como uma das principais soluções a longo prazo. “Muita gente diz que é enxugar gelo, mas não é. Uma ninhada não castrada pode gerar dezenas de filhotes, que vão parar nas ruas ou morrer.”
Evania também critica a ideia de que a responsabilidade de cuidar e denunciar maus-tratos recaia apenas sobre os protetores. “Todo mundo pode ser protetor. Viu um animal sofrendo? Denuncie. Ligue para a polícia, reúna provas. Não é só o protetor que tem o dever.”
A fala de Evania expõe a complexidade do problema e a necessidade de um esforço coletivo, envolvendo poder público, legislação, fiscalização, e, principalmente, conscientização da população. Para ela, enquanto os animais forem vistos como descartáveis, a luta seguirá desigual. “Está muito difícil. Parece que virou brincadeira brincar com os sentimentos dos animais. O que falta mesmo é amor no coração.”

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