Das 698 cirurgias eletivas feitas este ano, só 39 foram feitas no Hospital de Caridade em Vargem Grande do Sul

Hospital de Caridade de Vargem Grande do Sul. Foto: Arquivo Gazeta

Em 2024, a Prefeitura Municipal gastou cerca de R$ 1,5 milhão em cirurgias eletivas, sendo que do total de 1.154, somente 167 foram feitas no Hospital de Caridade

A questão envolvendo cirurgias eletivas para a população de Vargem Grande do Sul sempre vem à baila nas discussões realizadas junto aos vereadores municipais, principalmente durante a discussão das emendas impositivas quando a Câmara Municipal discute o Orçamento Municipal e os vereadores podem destinar recursos para a Saúde através das emendas, dentre elas, as que visam as cirurgias eletivas para que sejam realizadas no Hospital de Caridade de Vargem Grande do Sul.
Se no ano passado os vereadores destinaram cerca de R$ 260 mil para cirurgias eletivas que seriam realizadas em 2025, através das emendas dos vereadores Gláucio Mototaxi, que destinou R$ 10 mil, Guilherme R$ 21 mil, Fernando R$ 81 mil, Bertoleti R$ 25 mil, Serginho R$ 21 mil, Danutta R$ 79 mil, Paulinho R$ 15 mil e Parafuso R$ 11 mil, este ano os vereadores não destinaram nada. A causa pode ser que ainda não foi aprovado o Plano de Trabalho do Hospital de Caridade junto à Prefeitura Municipal, e por conta deste atraso as cirurgias ainda não foram feitas este ano.
Segundo apurou a reportagem do jornal Gazeta de Vargem Grande, cirurgias eletivas são procedimentos médicos que, ao contrário das emergências, podem ser programados com antecedência, trazendo uma série de vantagens tanto para o paciente quanto para a equipe médica, já que permite uma preparação detalhada e cuidadosa dos procedimentos, que são cruciais para evitar o agravamento de doenças e para promover a reabilitação e inserção social de pacientes, reduzindo as limitações impostas por condições crônicas e melhorando a qualidade de vida dos mesmos.
Em resposta a várias indagações do jornal envolvendo a questão da realização de cirurgias eletivas pagas pela Prefeitura Municipal, o diretor de Saúde Mário Merlin informou que em 2024, foram realizadas um total de 1.154 cirurgias eletivas para atender os vargengrandenses, sendo 167 no Hospital de Caridade de Vargem Grande do Sul, 954 no hospital de Divinolândia, 12 no hospital de Caconde e 21 no hospital de Espírito Santo do Pinhal.
Para este ano de 2025, o diretor informou que até agosto, foram computadas 698 cirurgias eletivas, distribuídas da seguinte forma: Vargem Grande do Sul (39), Divinolândia (583), Caconde (46) e Espírito Santo do Pinhal (30).
As cirurgias eletivas geralmente envolvem as cirurgias gastrointestinais, como remoção da vesícula biliar e correções de hérnia; as cirurgias ortopédicas, que são um dos tipos mais comuns de cirurgias eletivas; os procedimentos urológicos, como remoção de pedras nos rins: as da área de ginecologia e também as que envolvem as oftalmológicas. Nem todas podem ser realizadas no Hospital de Caridade local.
Geralmente para as cirurgias eletivas feitas na região, atualmente os pacientes de Vargem são destinados para os procedimentos serem executados junto ao Hospital Regional de Divinolândia (Conderg), na Santa Casa de Caconde e no Hospital Francisco Rosas, em Espírito Santo do Pinhal.
Em 2024, o valor investido pela Prefeitura Municipal foi de aproximadamente R$ 1.500.000,00, e este ano de 2025, já houve gastos estimados em R$ 150.000,00, uma vez que o Hospital Regional de Divinolândia optou por realizar cirurgias custeadas integralmente pela Tabela SUS Paulista, dispensando aportes financeiros dos municípios da região. Para pagar estas cirurgias, o município utiliza de verbas que são financiadas pela Tabela SUS Federal e pelo SUS Paulista.
Como poucas cirurgias eletivas são realizadas no Hospital de Caridade de Vargem Grande do Sul, a reportagem da Gazeta de Vargem Grande para melhor informar seus leitores, questionou quais cirurgias foram feitas no Hospital de Caridade este ano, sendo informada que foram realizadas cirurgias eletivas conveniadas nos meses de janeiro e outubro de 2025, além das cirurgias de urgência, que não são classificadas como eletivas.
O diretor de Saúde também respondeu porque as cirurgias eletivas foram interrompidas ou reduzidas no Hospital de Caridade, afirmando: “Por se tratar de uma entidade filantrópica, o Hospital de Caridade possui gestão própria e independente. O Departamento de Saúde não tem acesso aos trâmites internos da instituição, encaminhando os pacientes conforme as vagas disponibilizadas pelo Hospital”.
Também Mário Merlin explicou que a retomada das cirurgias eletivas pelo Hospital de Caridade depende de definições internas da entidade e de seu Corpo Clínico, incluindo organização operacional, estrutura disponível e acordos institucionais.
Ao ser indagado se a Prefeitura tinha interesse em retomar as cirurgias eletivas em parceria com o Hospital de Caridade, o diretor de Saúde de Vargem Grande do Sul afirmou que a Administração Municipal reconhece a importância da realização dos procedimentos no próprio município, tanto para o bem-estar dos pacientes quanto para o fortalecimento da instituição. “No entanto, enquanto não houver oferta de vagas, o município continuará garantindo atendimento por meio da rede regional”, concluiu.
Quando foi perguntado se existe algum plano ou projeto em curso para fortalecer a capacidade cirúrgica do Hospital de Caridade, afirmou Mário: “O Departamento de Saúde tem apoiado a administração da entidade, que informa estar em processo de organização e ampliação da capacidade cirúrgica, inclusive com perspectiva de utilização de emendas impositivas destinadas a esse fim”.
Ainda explicou que mesmo com a intervenção municipal junto ao Hospital de Caridade, com o prefeito nomeando inclusive o interventor José Geraldo Ramazotti, uma vez que não há Mesa Diretora eleita, esta intervenção não interfere na realização de cirurgias eletivas, não havendo impacto direto sobre a oferta dos procedimentos, ressaltando que a intervenção não constitui impedimento nem condicionante para a reorganização da oferta de cirurgias eletivas.
Outra questão formulada pelo jornal, foi com relação ao acompanhamento da realização das cirurgias eletivas pela população. Como a população poderia acompanhar os números de cirurgias eletivas realizadas. Mário Merlin respondeu que até o momento, os dados não são disponibilizados em portal oficial.
Também a Gazeta de Vargem Grande perguntou ao diretor de Saúde, se há metas definidas pela Prefeitura para ampliar o número de cirurgias eletivas nos próximos anos, sendo respondido que: “Sim. Considerando a relevância desses procedimentos, o Departamento de Saúde trabalha para ampliar a oferta, seja no município ou por meio de referências regionais, garantindo assistência contínua aos pacientes”. Que com relação a se houve mutirões de cirurgias eletivas nos últimos anos e qual foi o impacto, a resposta da Saúde foi que sim, sendo realizados mutirões nos municípios de Divinolândia e Caconde, com destaque para procedimentos urológicos.
Adiantou o diretor que os principais impactos foram: redução da demanda reprimida, prevenção de agravamento de doenças em fila de espera, melhor utilização da estrutura hospitalar e maior satisfação dos usuários. “Mutirões são considerados ações pontuais para situações emergenciais”, avaliou Mário Merlin.
Finalizando, o jornal indagou se há parcerias previstas com o Estado ou governo federal para ampliar a realização de cirurgias eletivas e o diretor Mário Merlin afirmou que sim, com o governo do Estado, por meio do SUS Paulista e do programa Mais Especialistas, que vem ampliando consultas com especialistas e incentivando a realização de cirurgias eletivas. “A meta municipal é reduzir progressivamente as filas de espera nos próximos anos”, concluiu o diretor.

Hospital comenta sobre emendas impositivas
Procurado pela reportagem da Gazeta de Vargem Grande, o atual interventor do Hospital de Caridade, José Geraldo Ramazotti, na presença do administrador da entidade Francisco de Assis Masuco Manoel, ao ser questionado sobre as cirurgias eletivas que não foram realizadas este ano com as verbas das emendas impositivas de 2024 dos vereadores municipais, disse que para atender as emendas, é necessário que os procedimentos constem do Plano de Trabalho de 2025, que o mesmo foi entregue em agosto na Prefeitura Municipal, mas que foi necessário refazer o mesmo, dado o novo modelo exigido, conforme determinação da administração municipal e agora está sendo aguardado a sua aprovação.
“A liberação dos procedimentos só podemos fazer após a aprovação do Plano de Trabalho. Nele estão contidos a realização de 24 procedimentos urológicos e 24 cirurgias gerais, totalizando 42 cirurgias eletivas, que é o valor liberado pela prefeitura através das emendas impositivas, que totalizam R$ 260 mil para 2025”, afirmou. Com relação ao número de cirurgias feitas em outros municípios em relação ao Hospital de Caridade e a participação dos médicos na questão, o interventor preferiu não emitir opinião a respeito.

Conflito antigo
A questão da realização das cirurgias eletivas no Hospital de Caridade é antiga em Vargem Grande do Sul e envolve a Prefeitura Municipal, o Hospital e os médicos que atuam na entidade. Com um centro cirúrgico considerado muito bom, construído na sua maior parte com dinheiro público, o Hospital tem condições de realizar a maioria das cirurgias eletivas.
O problema estaria nos custos destas cirurgias. A Prefeitura segue o padrão do SUS do governo federal e também o SUS Paulista, complementando quando necessário. A questão é que os valores são muito baixos, não se tornando atrativo para os médicos que atuam no Hospital, cuja responsabilidade e risco na realização das mesmas, são por eles considerados muito alto. Também o Hospital arca com custos elevados para realizar determinadas cirurgias e os valores pagos pelo SUS, na maioria das vezes se torna fator impeditivo para a realização de muitas delas, precisando ser complementados pela Prefeitura.
Como pode verificar o jornal Gazeta, no entanto, há hospitais na região e também médicos que operam pelos valores das tabelas SUS e SUS Paulista, complementados quando necessário, com valores acessíveis para a prefeitura de Vargem Grande do Sul, como é o caso dos hospitais relacionados pelo diretor de Saúde, Mário Merlin, como o Conderg de Divinolândia, Santa Casa de Caconde e o hospital de Espírito Santo do Pinhal.
Em 2021, a questão das cirurgias eletivas foi tema de importante discussão na Câmara Municipal, quando o então prefeito Amarildo Duzi Moraes destinou um valor de R$ 3 milhões para o Hospital de Caridade, visando à prestação de serviços de urgência e emergência complementar do Sistema Único de Saúde (SUS), quando se vivia a enorme crise proporcionada pela Covid. Cerca de 10% do valor (R$ 300 mil), seriam destinados às cirurgias eletivas, principalmente em urologia.
Amarildo destacou na época que o Hospital de Caridade enfrentava uma grave situação financeira, em razão de déficits orçamentários anuais em suas contas e da elevada dívida existente. “Também de amplo conhecimento público, o impacto da Pandemia de Covid-19 que agravou ainda mais essa situação, sendo necessário a Municipalidade socorrer financeiramente a entidade para que a mesma não feche suas portas”, pontuou o então prefeito.
Naquele ano, a maioria das cirurgias eletivas que a população necessitava já era feita em hospitais da região. O então vereador Maicon Canato naquela sessão afirmou que tinham pessoas na fila esperando, passando mal, sofrendo diariamente. Para o vereador, uma alternativa seria ao invés de destinar o valor ao Hospital de Caridade, cerca de R$ 300 mil para as cirurgias eletivas, melhor seria já direcionar para alguma unidade de saúde que efetivamente iria atender essa demanda da população. “Se o corpo clínico não está de acordo, repassa esse valor para outro lugar. Porque o que não pode é a população ficar na fila de espera, não aguentando de dor e os médicos não fazerem nada para ajudar a população”, disse na ocasião Maicon Canato, hoje presidente da Câmara Municipal.
“No primeiro convênio, cobramos as cirurgias eletivas e passados quase seis meses, tudo o que constava na justificativa não foi colocado em prática”, disse na sessão ocorrida em 2021, o vereador Paulinho da Prefeitura. “Espero que realmente seja cumprido esses 10% nas cirurgias urológicas. A população precisa”, afirmou na época.
O vereador Canarinho, também observou na sessão ocorrida há quatro anos atrás, quando era provedor do Hospital o empresário Jair Gabricho, que a prefeitura tinha custeado centenas de cirurgias eletivas, muitas delas em outros municípios. “Em 2020, foram feitas 994 cirurgias eletivas. É uma pena não estarem sendo feitas aqui”, disse. O vereador seguiu detalhando que em 2019 foram 650 operações e até julho daquele ano, foram realizadas 421 cirurgias eletivas. “Então, acredito que enquanto município, a população está sendo atendida. Infelizmente não é feito aqui. E a cirurgias urológicas é o que preocupa muito”. “A gente pede aos médicos que se solidarizem e façam sua parte, nós fazemos nossa parte aqui, a prefeitura também. O Jair, com toda diretoria, com certeza está fazendo a parte dele para melhor atender os munícipes”, disse Canarinho. Já naquela época, o problema das cirurgias eletivas se arrastava, com centenas delas sendo feitas em hospitais da região e não no Hospital de Caridade de Vargem Grande do Sul, e, pelo que se pode notar, continuam até os dias atuais.

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