Após um ano marcado por sete suicídios e novos casos registrados já no início de 2026, município reforça atendimentos e destaca a importância da prevenção e do cuidado contínuo
A repercussão dos dois casos de suicídios que aconteceram neste início de ano no município, levou a reportagem da Gazeta de Vargem Grande a procurar o Departamento de Saúde do município para entender como o sistema público tem atuado no acolhimento e na prevenção dos casos de tentativa de suicídio e ideação suicida. Em resposta, a coordenadora de Saúde Mental, Priscila Rita Massini Lupianez Manzoni, destacou o trabalho desenvolvido ao longo de todo o ano pelos serviços especializados e reforçou a importância do envolvimento coletivo no cuidado com a saúde mental.
O ano de 2025 foi marcado por sete suicídios consumados em Vargem Grande do Sul, gerando grande comoção na cidade e tornando o tema um dos mais discutidos nas redes sociais e nos espaços comunitários. O cenário preocupante se estendeu para 2026: apenas nas duas primeiras semanas deste ano, dois novos suicídios voltaram a abalar a população, reacendendo o alerta sobre a necessidade de prevenção e fortalecimento da rede de apoio.
Segundo Priscila, ao longo de 2025 houve também uma alta demanda de atendimentos por tentativas de suicídio e ideações de autoextermínio, principalmente nos serviços de Saúde Mental, como o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) e o SASP. “Esses casos chegam até nós tanto por encaminhamentos da Rede de Cuidados em Saúde e da rede socioassistencial, quanto por procura espontânea da própria população”, explicou.
No CAPS, conforme a coordenadora, o atendimento aos casos de tentativa de suicídio é considerado prioridade absoluta. “Não há necessidade de agendamento. A pessoa é acolhida imediatamente para uma avaliação do risco atual, onde analisamos ideação suicida, planos, acesso a meios, fatores de risco e também os fatores de proteção”, afirmou Priscila. A partir dessa avaliação inicial, é definida a intensidade do cuidado, que pode incluir internação psiquiátrica para estabilização do quadro ou acompanhamento ambulatorial.
O acompanhamento, de acordo com ela, é contínuo, multiprofissional e individualizado, seguindo as diretrizes do SUS e da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). “O cuidado pode envolver atendimentos individuais e em grupo, oficinas terapêuticas, psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico, além de um trabalho muito próximo com a família e a rede de apoio”, detalhou. Também são realizados encaminhamentos para outros serviços, como Unidades Básicas de Saúde, Assistência Social e hospitais, sempre que necessário.
Priscila ressalta que os casos de tentativa de suicídio costumam exigir um acompanhamento prolongado. “Nosso objetivo é reduzir o risco de recorrência. Durante o processo, os profissionais identificam ambivalências, níveis de desesperança, impulsividade, fatores de risco e fatores de proteção. Trabalhamos o fortalecimento da identidade, da autoestima e o desenvolvimento de habilidades de enfrentamento”, explicou.
Quando há estabilização clínica, os cuidados podem ser compartilhados com a Atenção Básica, mas, segundo a coordenadora, o CAPS mantém suas portas abertas. “Mesmo após a alta do acompanhamento intensivo, a pessoa sabe que pode retornar ao CAPS sempre que vivenciar uma crise”, destacou.
A temática ganha ainda mais visibilidade durante a campanha “Janeiro Branco”, que propõe uma reflexão coletiva sobre saúde mental. Para Priscila, o momento é oportuno para reforçar a importância da prevenção ao suicídio. “O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial. Não se trata de fraqueza ou de uma decisão isolada, mas de um sofrimento psíquico intenso que, muitas vezes, encontra a pessoa sem o apoio necessário”, pontuou
Ela enfatiza que a prevenção não é responsabilidade apenas dos serviços de saúde. “A sociedade como um todo precisa estar envolvida. Escolas, famílias, ambientes de trabalho, meios de comunicação e a comunidade têm papel fundamental na construção de uma cultura de acolhimento, escuta e pertencimento. Falar sobre o tema salva vidas”, afirmou.
Embora o “Janeiro Branco” simbolize o início do ano, Priscila reforça que o cuidado com a saúde mental precisa ser permanente. “Esse é um compromisso que deve durar o ano todo. O CAPS e o SASP realizam esse trabalho continuamente, promovendo cuidados, bem-estar emocional, ressignificação de conflitos e ações de prevenção ao suicídio e valorização da vida em todos os meses do ano”, concluiu.
A coordenadora lembra ainda que cuidar da saúde mental passa pela adoção de hábitos saudáveis, como atividade física regular, alimentação equilibrada, sono de qualidade, fortalecimento de vínculos sociais, manejo do estresse, momentos de lazer, autocompaixão e uso consciente das redes sociais. “Buscar apoio social e profissional é uma medida preventiva fundamental. Cuidar da saúde mental é um ato de responsabilidade coletiva”, finalizou.












