
Aos 51 anos, a professora Elaine Cristina Mesquita acumula 27 anos de atuação na educação e, atualmente, exerce a função de diretora da Escola Professor Francisco Ribeiro Carril, onde está há dez anos. Em entrevista à Gazeta de Vargem Grande, ela falou sobre os desafios de conciliar a carreira na educação com a maternidade, a perda do marido, as responsabilidades familiares e a construção de uma trajetória marcada pelo cuidado com os outros.

Elaine contou que ficou viúva após seis anos de casamento. Na época, o filho José Paulo Mesquita, hoje com 23 anos, tinha apenas quatro anos de idade. Após a perda do marido, ela voltou a morar com os pais, que se tornaram sua principal rede de apoio durante o período mais difícil da vida.
Segundo Elaine, a maternidade trouxe mudanças profundas e exigiu adaptações constantes. “A vida, depois dos filhos, tem muitas mudanças. Passamos a ter que conciliar o trabalho com a criação e ainda suprir a falta do pai, no meu caso”, relatou. Ela afirma que o apoio dos pais foi essencial para tornar a rotina menos pesada. “Fica muito complicado, porém com o apoio dos meus pais tornou um pouco mais suave”, disse.

A diretora lembra que passava grande parte do dia fora de casa, dividida entre as responsabilidades profissionais e a criação do filho. “Passava o dia todo fora educando, cuidando dos meus alunos e organizando a rotina e dos cuidados com meu filho meio que distante”, afirmou.
Entre as lembranças mais difíceis da trajetória, Elaine destaca os momentos importantes da vida do filho dos quais precisou abrir mão por causa do trabalho. “Os momentos mais difíceis foram conquistas, homenagens e outras vivências do meu filho que eu deixei de participar pois estava fazendo homenagens para as mães dos meus alunos”, contou. Nessas ocasiões, eram os avós que acompanhavam José Paulo.

Ao falar sobre o filho, Elaine se emociona ao destacar a compreensão e o apoio que sempre recebeu dele. “O orgulho que eu tenho é saber que o Zé Paulo sempre compreendeu a minha situação. Ele sempre aceitou e me apoiou”, disse. Segundo ela, mesmo diante das ausências inevitáveis provocadas pela profissão, o filho nunca demonstrou revolta ou ressentimento.
“Era muito difícil eu conciliar uma apresentação de Dia das Mães, porque era no mesmo dia. Era ele numa escola e eu em outra. E ele nunca me cobrou. Ele sempre entendeu que eu precisava trabalhar porque eu tinha ele, que era minha prioridade”, afirmou. Elaine explica que sempre trabalhou pensando em oferecer melhores condições ao filho. “Eu queria poder proporcionar para ele coisas boas. E para eu proporcionar isso, eu tinha que trabalhar”, contou.

Ela considera que sua maior realização é perceber que José Paulo cresceu compreensivo e afetuoso. “Ele não se tornou um jovem revoltado de não ter a mãe ali”, declarou. Hoje, segundo ela, o filho continua presente em sua vida e participa ativamente da rotina da família. “Hoje ele me ajuda. Às vezes precisa de alguma coisa, eu tenho essa troca com ele”, comentou.
Ao refletir sobre a profissão, Elaine afirma que ser professora exige muito mais do que ensinar conteúdos. “Não é fácil ser professor. Nunca foi”, disse. Para ela, a educação envolve responsabilidade emocional e humana. “Você está lidando com a vida do outro. Muitas vezes o único carinho que uma criança recebe é o do professor”, afirmou.

Ela acredita que o educador precisa deixar marcas positivas na vida dos alunos. “Você tem que fazer a diferença na vida daquela criança. Você tem que fazer a diferença na vida do teu filho e daquela criança”, disse. Segundo Elaine, a sensação de missão cumprida aparece quando recebe o carinho de ex-alunos e o reconhecimento do próprio filho. “Aí que você vê que a missão foi cumprida.”
Além da maternidade e da carreira na educação, Elaine também assumiu ao longo dos anos responsabilidades dentro da própria família. Ela conta que sempre ajudou os pais nos cuidados com o irmão Guto, de 47 anos, que é autista. “Eu sou um pouco mãe do meu irmão”, disse.
Com o passar do tempo, os pais deixaram de ser apenas rede de apoio para também precisarem de cuidados. “Eu também tinha meus pais, que passaram da minha rede de apoio a precisar do meu apoio”, relatou. Ela afirma que precisou conciliar simultaneamente o trabalho, a criação do filho, os cuidados com a casa, os pais e o irmão.
Apesar das dificuldades, Elaine diz sentir gratidão pela trajetória construída. Atualmente na direção da escola, ela passou a receber os filhos de antigos alunos. “É muito bom aquele meu aluno chegar e falar: ‘a senhora deu aula para mim, a senhora cuidava de mim’”, contou.
Ela afirma que grande parte dos ex-alunos guarda boas lembranças do período em que foram seus estudantes. “Eu vejo que consegui. Hoje, com 27 anos de carreira, eu consegui ter boas histórias e deixar lembranças boas no coração dos meus alunos”, declarou.
Ao olhar para a própria história, Elaine resume sua trajetória com sentimento de realização. “Estar com o meu filho aí, um homem formado, terminando a faculdade, com a vida dele, que não ficou uma pessoa revoltada, sofrida, e também conseguir cumprir a missão de cuidar dos meus pais e do meu irmão”, concluiu.











