Editorial: Uma cidade que envelhece e precisa se preparar

Uma cidade que envelhece e precisa se preparar

Os números falam por si. Segundo o Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Vargem Grande do Sul tem 7.496 moradores com 60 anos ou mais, o equivalente a 18,6% da população total do município. Quase um em cada cinco vargengrandense é idoso. Não se trata de uma curiosidade estatística. Trata-se de uma realidade que afeta a forma como a cidade precisa planejar seus serviços, sua infraestrutura e suas políticas públicas.
O envelhecimento da população não é um fenômeno local. É uma tendência que transforma o Brasil inteiro. Entre 2000 e 2023, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais no país praticamente dobrou, passando de 8,7% para 15,6%, conforme aponta o próprio IBGE. A combinação entre o avanço da medicina, a melhoria das condições sanitárias e a queda nas taxas de natalidade produziu uma mudança profunda na pirâmide etária brasileira e Vargem Grande do Sul reflete esse movimento nacional.
Viver mais é, antes de tudo, uma conquista. O aumento da expectativa de vida é resultado de décadas de avanços em saúde pública, educação e qualidade de vida. Mas longevidade sem estrutura é um desafio que a sociedade ainda está aprendendo a enfrentar. Uma cidade com quase um quinto de sua população na faixa etária dos 60 anos ou mais precisa de mais do que boa vontade, precisa de planejamento, investimento e visão de longo prazo.
É justo reconhecer que Vargem Grande do Sul já caminha nessa direção. O município conta com uma rede de programas e iniciativas voltadas à população idosa, que vão do Centro de Convivência ao atendimento oferecido pelas unidades de saúde, passando pela atuação de entidades da sociedade civil que há anos trabalham para garantir dignidade, inclusão e qualidade de vida a esse público. Esses esforços merecem reconhecimento e merecem continuidade.
Mas reconhecer o que já existe não significa fechar os olhos para o que ainda falta. O Estatuto da Pessoa Idosa garante, no papel, uma série de direitos fundamentais: atendimento preferencial, acesso gratuito à medicamentos de uso contínuo, vagas reservadas, gratuidade no transporte público para maiores de 65 anos e prioridade especial para os que têm 80 anos ou mais. A distância entre o que a lei assegura e o que a realidade oferece, porém, ainda é grande em muitos municípios brasileiros e Vargem Grande do Sul não está imune a esse descompasso.
Os desafios são concretos e variados. A mobilidade urbana precisa considerar as limitações físicas de quem envelhece. Os serviços de saúde precisam estar preparados para uma demanda crescente por atendimentos de média e alta complexidade, acompanhamento de doenças crônicas e cuidados continuados. A assistência social precisa alcançar os idosos em situação de vulnerabilidade, muitas vezes invisíveis às políticas convencionais. E a cidade como um todo precisa ser pensada para acolher quem tem 60, 70 ou 80 anos, nas calçadas, nos espaços públicos, no transporte, no comércio e nos serviços.
A sociedade civil organizada tem um papel fundamental nesse processo. Grupos de convivência, associações, igrejas, clubes e entidades assistenciais são muitas vezes o primeiro e às vezes o único ponto de contato de muitos idosos com o mundo ao redor. Seu trabalho não pode ser tratado como complementar ou secundário, ele é estrutural. Mas ele não substitui a responsabilidade do poder público. Cabe ao município planejar políticas que acompanhem o ritmo acelerado com que a população envelhece.
Vargem Grande do Sul tem, nesse cenário, uma oportunidade de se antecipar. Os dados do Censo já mostram onde a cidade está. Cabe agora decidir para onde ela quer ir. Uma cidade que cuida dos seus idosos é uma cidade que respeita sua própria história e que se prepara com responsabilidade para o futuro.

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