José Alberto Aguilar Cortez
A paixão pelos esportes não contamina apenas o torcedor que acompanha sua equipe e idolatra seus ídolos. Dentro das quatro linhas também faz crescer um sentimento inigualável de dependência que dificulta a separação do atleta com a competição. Michael Jordan se despediu e depois acabou voltando. Pelé também teve mais de uma despedida e como eles muitos outros não conseguiram assumir a aposentadoria por muito tempo. Embora se diga que é muito difícil ficar longe dos estádios, das entrevistas e do assédio dos torcedores, o que é realidade, mais do que isso é difícil ficar privado da adrenalina, combustível inseparável das competições. O jovem atleta começa a experimentar o prazer que esta substância química provoca quando não dorme na noite que antecede um jogo, quando recebe a notícia da primeira convocação e quando ouve, emocionado, o hino do seu país anunciando aqueles que representam todos os brasileiros. O corpo se acostuma com as descargas de adrenalina que aceleram os batimentos cardíacos, retesam os músculos e aceleram as tomadas de decisões. Após anos de submissão voluntária à estas situações que aumentam a produção desta droga endógena é natural que o corpo apresente sintomas relacionados com a abstinência. Portanto, é compreensível o comportamento daqueles que não suportaram ficar distantes do clima que antecede a competição e das emoções que acompanham a disputa. Mas quando o momento chega não há como adiar, quando os efeitos do envelhecimento impedem que o corpo execute com rapidez e perfeição os movimentos que o tempo ajudou o cérebro criar, é hora da despedida. Esta semana assistimos, emocionados, Oscar anunciando seu afastamento das competições e compreendemos sua dificuldade em dizer adeus. Participou de cinco olimpíadas, só dois jogadores se igualaram a ele, um porto-riquenho e um australiano, foi cestinha em Seul, Barcelona e Atlanta. Conseguiu fazer 1093 pontos nas cinco participações olímpicas. Jogou na Espanha e na Itália, onde foi campeão e foi homenageado com a publicação de um livro sobre a sua vida. Estreou na seleção brasileira com 19 anos de idade e conquistou vários campeonatos inclusive um Pan-americano inesquecível, em 1987, derrotando os Estados Unidos em Indianápolis. Quem viu aquela partida memorável não esquece a expressão incrédula dos americanos olhando o placar eletrônico e a imagem sorridente de Oscar com a redinha da cesta pendurada no pescoço. Ela só podia estar ali, comemorando com aquele que sempre soube acariciá-la com a precisão dos seus arremessos. Depois de tantas conquistas e de tudo que já fez pelo basquete brasileiro o Mão Santa pode dizer adeus, mas Oscar Schimidt ainda não.
NR: Este texto foi escrito pelo professor José Alberto Aguilar Cortez em 2003 para a Jovem Pan, por ocasião do afastamento das quadras de Oscar Schimidt. Com o seu falecimento ocorrido no último dia 17 de abril de 2026, o autor do texto achou que seria importante publicá-lo na Gazeta de Vargem Grande, prestando assim uma última homenagem ao maior jogador de basquete do Brasil.












