Da superação ao acolhimento: 9 anos da Sopa Solidária

Fernanda criou o projeto há 9 anos e atende muita gente diariamente
Cerca de 150 marmitas são produzidas por semana. Fotos: Arquivo Pessoal

O inverno começa oficialmente neste domingo, 21 de junho, às 5h24 (horário de Brasília), e já traz consigo uma grande onda de frio da estação. Uma forte massa de ar polar avança pelo interior da América do Sul e promete derrubar as temperaturas de forma acentuada em diversas regiões do país. O interior paulista está entre as áreas afetadas.
Em Vargem Grande do Sul, o Climatempo prevê mínimas de 15°C e máximas de 25°C para o fim de semana, com possibilidade de chuva e umidade elevada, condições que intensificam a sensação de frio, especialmente nas madrugadas e no amanhecer. O próprio site da plataforma ativa, nestes dias, possui ícone de alerta para risco de resfriado na cidade. No entanto, o dia mais frio na cidade foi a última quarta-feira, quando os termômetros marcaram 9,6°C conforme dados do Centro Integrado de Informações Agrometeorológicas (Ciiagro).
A população em situação de rua é a mais vulnerável neste período. Sem abrigo fixo, sem cobertores suficientes e muitas vezes sem acesso a uma refeição quente, essas pessoas enfrentam o frio de forma desprotegida, exposta ao relento e à umidade da madrugada. Em Vargem Grande do Sul, onde a rede de apoio é limitada, especialmente após o encerramento das atividades da Casa de Passagem, no final de 2025, a solidariedade da comunidade faz diferença direta entre o conforto e o sofrimento.

Levando alimento e esperança
A história de Fernanda Bocaiuva é marcada pela superação e pela solidariedade. Mãe de sete filhos e avó de dez netos, ela transformou uma trajetória de sofrimento em um trabalho social voltado ao atendimento de pessoas em situação de vulnerabilidade e dependência química.
Segundo Fernanda relatou à Gazeta de Vargem Grande, durante muitos anos ela foi usuária de drogas e viveu em condições de extrema pobreza. Ao lado dos filhos, enfrentou períodos de fome e dificuldades até decidir lutar contra o vício. Foi nesse período que conheceu o pastor Paulo e passou a frequentar uma igreja localizada no Jardim Ferri. Na época, também havia um grupo religioso na Vila Santa Terezinha, cujo ponto de pregação funcionava em sua própria residência. Foi nesse ambiente de fé que, segundo ela, fez um propósito com Deus. “Eu falei para Deus que, se Ele me libertasse das drogas, eu trabalharia para ajudar as pessoas que vivem o que eu vivi”, relembra.
A promessa deu origem ao projeto Sopa Solidária, criado há nove anos com recursos simples. De acordo com Fernanda, tudo começou com apenas uma lata de molho de tomate e um pacote de macarrão. Na época, os alimentos eram arrecadados com a ajuda de membros da igreja, amigos e vizinhos. Desde o início, porém, ela própria assumiu sozinha o preparo das refeições e a organização do projeto.
Ao longo dos anos, a iniciativa enfrentou desafios, mas continuou graças ao apoio de doadores que contribuem com alimentos e outros itens. Atualmente, Fernanda produz até 150 marmitas por semana, distribuídas para pessoas em situação de rua e usuários de drogas. “Eu faço tudo sozinha. Cozinho, monto as marmitas e organizo as entregas. O que me ajuda são as doações que chegam todos os dias”, afirmou.
Segundo ela, a alimentação oferecida é simples, composta por arroz, feijão e verduras, mas é servida diariamente. Em datas especiais, como Natal, Ano Novo e Páscoa, também são realizados almoços comemorativos. “É uma comida simples, mas feita com muito amor. O importante é que ninguém saia com fome”, disse.
O almoço é servido diariamente entre 10h30 e 12h. Já o jantar acontece das 19h30 às 21h e pode ser retirado na residência de Fernanda, localizada na Rua Nélson Cavaleiro, nº 80, no Jardim Santa Marta. “Eles mesmos buscam a janta aqui em casa. Já faz parte da rotina de muitas pessoas que contam com esse alimento”, relatou.
Às quartas e quintas-feiras, a refeição noturna é substituída por sopa, distribuída na Igreja Pentecostal Sopa Solidária Resgatando Almas, localizada na Rua Francisco Ribeiro Costa, nº 110, no Jardim Dolores. “Eles vão para a igreja em busca da sopa e acabam participando da pregação. Isso me fortalece ainda mais nesse projeto”, afirmou.
Fernanda destaca que o trabalho vai além da distribuição de alimentos. “Onde os usuários estão, eu levo as marmitas. Ando pelo Jardim Dolores, pelo Santa Marta, pelo Centro. Eu conheço essa realidade porque um dia ela também foi minha”, contou.
Hoje pastora e responsável por seu próprio ministério, Fernanda diz que a fé é a principal motivação para continuar a missão. Ela destaca que recebe doações diariamente e agradece a todas as pessoas que colaboram com a iniciativa, muitas delas de forma anônima. “Tem muita gente que ajuda e nem gosta de aparecer. Eu sou muito grata a cada pessoa que doa um alimento ou estende a mão para esse trabalho”, ressaltou.
Um dos filhos atua como motorista do projeto. Fernanda lembra que, no início, as entregas eram feitas em uma mobilete. Hoje, conta com um automóvel que considera uma bênção. “Antes eu fazia tudo de mobilete. Hoje, Deus me deu um carro. Eu não dirijo, mas meu filho me leva para fazer as entregas. Foi um presente de Deus para mim e para as pessoas que precisam desse trabalho”, afirma.
Além dos alimentos, o projeto também distribui roupas, calçados e cobertores quando recebe esse tipo de doação. Segundo Fernanda, os itens mais necessários atualmente são ingredientes e temperos para os pratos, mas qualquer contribuição é bem-vinda. “O que mais falta são os legumes e as verduras, mas toda ajuda chega na hora certa. Quando recebo roupas e cobertores, também entrego para quem precisa”, disse.
Ao completar nove anos de atividade, a Sopa Solidária segue atendendo dezenas de pessoas semanalmente. Para Fernanda, a continuidade do projeto é resultado da fé que a ajudou a superar o vício e da solidariedade de quem contribui para manter o trabalho. “Esse era um sonho que Deus colocou no meu coração. Todos os dias Ele tem honrado esse projeto”, concluiu.

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