Copa
Por Victória Mazarini
Eis que a Copa se anuncia,
E o povo se inflama em júbilo;
Erguem-se os estandartes da pátria,
E as cidades vestem-se de verde e ouro.
Contudo, ergo os olhos e contemplo:
O pendão nacional jaz roto ao vento;
As masmorras transbordam de almas,
As crianças não folheiam os livros,
E o trabalhador, após o labor de um mês inteiro,
Não encontra à mesa o pão nem o sustento.
A bandeira verte rubro em suas dobras,
Como ferida aberta sobre a terra.
Escasseia a caridade entre os homens,
E vê-se mais guerra que concórdia;
A injustiça clama pelas ruas,
Onde o inocente tomba sem voz,
Enquanto o malfeitor vagueia livre.
A lei, que deveria ser cega e reta,
Caminha de mãos dadas com alguns.
Devera eu cantar a esfera que rola pelos campos,
E os feitos dos atletas em disputa;
Mas perdoai-me a franqueza da pena.
Pois a Copa reúne os brasileiros
Sob um só peito e um só brado;
Faz de muitos um único coração.
Contudo, se haveis de torcer pela pátria,
Torcei também por uma terra mais justa,
Onde floresçam o amor, a honra e a compaixão;
Para que um dia não celebremos apenas vitórias em campo,
Mas a vitória de um povo sobre sua própria dor.









